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MEMÓRIA 22 - GRÁVIDA

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  Para me manter fiel a ideia de que o teatro era minha profissão tive que trabalhar muito. A parte boa era quando exercia as funções de ator e/ou diretor. A parte mais ou menos era fazer bilheteria, produção e vendas. E a parte ruim era atender as exigências dos burocratas e dos poderosos de plantão. Entra ano e sai ano, dias de semana e feriados, todos os dias eram de trabalho. Existem anos que se destacam pelo pouco trabalho como agora, e anos que transbordam. Foi o caso do ano de 2004, ano intenso, de muito trabalho e de muitas realizações.   Em 2004 eu era oficineiro da Descentralização da Cultura e dava aula de teatro na Vila Wenceslau Fontoura e na Vila dos Eucaliptos. Em janeiro estreei minha primeira montagem sobre um texto de Bertolt Brecht, uma adaptação minha para o texto “O Círculo de Giz Caucasiano”. Em maio foi a estreia de Medusa de Rayban, uma péssima experiência de encenar Mário Bortolotto. Em junho estreou Hilda Hilst in Claustro no Hospital São Pedro e em...

MEMÓRIA 21 - GENTE DE TEATRO

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  Outro dia escrevi uma triste despedida para o meu amigo Elton Manganelli. Ao escrever fui me dando conta que no desenrolar da minha vida como pessoa e como artista fui conhecendo e trocando com várias pessoas que se mostraram importantíssimas para alimentar em mim o gosto pelo teatro. Pessoas que fomentaram em mim o desejo e o exercício de ser artista. Pessoas que me ensinaram ou que, simplesmente, estavam comigo para enfrentar crises de criação ou de dinheiro. Suas posturas mantém até hoje acesa em mim esta convicção. Pois é justamente sobre estas pessoas que eu quero escrever neste texto-memória-homenagem.   Descontando breves experiências colegiais anteriores, posso dizer que comecei a fazer teatro quando entrei no DAD/UFRGS. Aulas de improvisação com a professora Graça Nunes. Interpretação com a professora Irene Brietzke. Expressão Corporal com a mito Maria Helena Lopes. E direção teatral com o professor Luiz Paulo Vasconcellos.   Estes eram alguns do time dos pro...

MEMÓRIA 20 - EU E O PLÍNIO MARCOS

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  Escrever sobre Arena Conta Plínio Marcos e relembrar as histórias de cada uma das montagens me fez pensar sobre minha ligação com Plínio Marcos e voltar as minhas origens teatrais. Em 1976 fiz a minha primeira peça inteira. Antes havia participado somente de cenas. Atuando ou dirigindo pequenas cenas. “Quando as Máquinas Param” foi o primeiro espetáculo que eu protagonizei. Durante o processo de ensaios eu fui para a biblioteca do Instituto de Artes ler todos os livros que tivessem uma linha sobre o Plínio Marcos. Li as peças de teatro do Plínio. Li artigos do Plínio nas revistas Veja e Isto É, no tempo que estas revistas eram dirigidas pelo Mino Carta. A montagem era um trabalho de aula da disciplina de Direção V, dirigida pelo Paulo Flores que, na época, estava começando a sua fulgurante e consistente trajetória. Anos mais tarde, Paulo Flores com seu talento e determinação, viria a ser o fundador do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz que figura entre os cinco mais importantes grupo...

MEMÓRIA 19 - ABAJUR LILÁS

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  Conta Plínio Marcos que ele escreveu sua primeira peça baseando-se num caso real que aconteceu em Santos, sua cidade natal.  Chocado com a história de um rapaz que “foi preso por uma besteira e, na cadeia, foi currado” ele escreveu “Barrela” em 1959. Dez anos depois em sua última peça, “Abajur Lilás” ele volta a mergulhar no subterrâneo santista, cidade portuária,  para recolher os motivos e os personagens de mais uma obra prima.   Com a mesma estrutura dramaturgica que “Dois Perdidos numa Noite Suja” é em “Abajur Lilás” que Plínio Marcos alcança sua mais verdadeira dramaturgia. Tem pleno domínio da carpintaria teatral. A temível crítica teatral Bárbara Heliodora (1923-2015), que se notabilizava pela severidade, escreveu que Plínio atingira a “perfeita economia dramática”. O que de nada adiantou, já que a peça foi censurada quando estava em fase final de ensaios e permaneceu proibida até 1980, cinco anos antes da ditadura militar desocupar a moita do poder. A proib...

MEMÓRIA 18 - DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA

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  Na segunda-feira depois da estreia de “ Navalha na Carne ” intensificamos os ensaios de “Dois Perdidos numa Noite Suja” . Peça icônica, escrita por Plínio Marcos (1933-1999) em 1966. A estreia, no mesmo ano, foi para poucas pessoas no Bar Ponto de Encontro em São Paulo. Com direção de Benjamin Cattan e Plínio Marcos com o próprio Plínio no papel de Paco e Ademir Rocha como Tonho. A peça causou sensação e gerou duas novidades uma boa e outra bem ruim: fez um sucesso enorme no Rio de Janeiro dirigida por Fauzi Arap e foi proibida pela censura.   Na década de 1960 Plínio Marcos já era considerado um dos nossos grandes dramaturgos. E também uma figurinha carimbada pelo Serviço de Censura de Diversões Públicas que  já existia desde antes da i nstauração da ditadura militar. “Barrela”, sua primeira peça, havia sido proibida em 1959 e foi liberada por intervenção do Paschoal Carlos Magno apenas para uma única apresentação. A partir do ditador Castelo Branco, Plínio passou d...

MEMÓRIA 17 - NAVALHA NA CARNE

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  Como de costume na noite de estreia chegamos cedo no Arena. Muita coisa ainda para terminar. A peça estava bem ensaiada. O trio do elenco estava muito coeso e cheio de energia. Se davam bem e se estimulavam, se pilhavam uns aos outros. A medida que a tarde passava e gente sentia o nervosismo aumentar. A gente tinha feito um ensaio geral sensacional no dia anterior. Combinações gerais entre os atores, passagem de algumas cenas. Passagem de luz. Tudo vai se aprontando. Tinha tudo pra dar certo.   Dezessete horas. Tr ê s horas nos separavam do nascimento da peç a. Inaugura ção do primeiro ato do Projeto Teatro Brasileiro. Eram muitos convidados. Nossos amigos, alguns colegas de teatro, “g ente importante ” convidada pela produção. Muita gente viria assistir nossa estreia. Repassar o s detalhes do cen á rio. Revisar o s detalhes dos figurinos. Os detalhes da s cena s . Dezoito horas. Sa í um pouco do ambiente denso do interior do teatro. Fui tomar um ar. Não me lembro ao c...

MEMÓRIA 16 - ARENA CONTA PLÍNIO MARCOS – O COMEÇO DE TUDO.

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  Finalmente, em 1995/96 eu me senti apto e maduro pra encarar a direção. Até então eu havia me exercitado bastante dirigindo peças infantis e uma que outra experiência como diretor de teatro para adultos. Em 1993 dirigi “A Dama da Noite”, um conto de Caio Fernando Abreu, com Walkíria Ghres e Rodrigo Freire. A encenação foi apresentada na Sessão Maldita que acontecia no porão do Teatro Renascença. Em 1995, na Cia. Stravaganza, dirigi “O Pastelão”, espetáculo de comédia dell’arte. No elenco eu, Adriane Mottola, Luiz Henrique Palese, Pinduca Gomes, Liane Venturella e Alexandre Tosetto. No ano seguinte fiz a direção de “Cagaoro”, solo da atriz e professora Laura Backes sobre um texto de Ítalo Calvino. Com todo este currículo me senti apto.     Em 1995 comecei a formatar um projeto que eu acalentava há pelo menos uns dez anos para apresentar no edital de ocupação do Teatro de Arena. O prêmio era ocupar o Teatro por seis meses e mais a fabulosa quantia de R$ 10.000,00 pra vo...