MEMÓRIA 17 - NAVALHA NA CARNE

 


Como de costume na noite de estreia chegamos cedo no Arena. Muita coisa ainda para terminar. A peça estava bem ensaiada. O trio do elenco estava muito coeso e cheio de energia. Se davam bem e se estimulavam, se pilhavam uns aos outros. A medida que a tarde passava e gente sentia o nervosismo aumentar. A gente tinha feito um ensaio geral sensacional no dia anterior. Combinações gerais entre os atores, passagem de algumas cenas. Passagem de luz. Tudo vai se aprontando. Tinha tudo pra dar certo.

 Dezessete horas. Três horas nos separavam do nascimento da peça. Inauguração do primeiro ato do Projeto Teatro Brasileiro. Eram muitos convidados. Nossos amigos, alguns colegas de teatro, “gente importante” convidada pela produção. Muita gente viria assistir nossa estreia. Repassar os detalhes do cenário. Revisar os detalhes dos figurinos. Os detalhes das cenas. Dezoito horas. Saí um pouco do ambiente denso do interior do teatro. Fui tomar um ar. Não me lembro ao certo, mas acho que ainda fumava naquela época. Se eu fumava, certamente, tinha saído pra fumar um cigarro.

 Tomei foi um susto. Não acreditei no que eu estava vendo. Na época a SMOV andava há mais de quatro meses fazendo uma obra de restauração das escadarias do chamado Viaduto da Borges. Até tudo bem. Já estávamos acostumados com a movimentação do pessoal da prefeitura por ali. Mas, acontece que eles resolveram despejar um caminhão de areia na entrada da escadria da Duque. Era muita areia. Um cômoro de areia impedia o acesso à escadaria que dá direto no Arena. Simplesmente não tinha como ninguém chegar no Teatro de Arena vindo pela Av. Duque de Caxias. E é óbvio que a maioria do público chega pela Duque.

Enluqueci. Um tremendo stress adicional. Desci as escadas e fui lá embaixo do viaduto conversar com o encarregado da obra que ficava numa casinha montada pros operários trocarem de roupa. Falei com educação mas com muita firmeza. O cara olhou pra minha cara e viu que eu não ia desistir. Falou que era final de expediente. Que não podia fazer nada. Eu disse que ele tinha que fazer pois ele seria o responsável direto por estragar todo um trabalho de meses e destruir a estreia da peça no teatro mais histórico e importante da cidade. Falei que o governador havia confirmado a presença. Falei que a Dona Eva Sopher havia confirmado presença. O cara decidiu me ajudar. Convocou três ou quatro funcionários e fomos até em cima desobstruir a passagem. Situação terrível.

 “A Navalha na Carne” foi a primeira a estrear. Depois de muitos anos eu voltava a assinar a direção de um espetáculo. Nada podia dar errado. Eu havia convidado a Patrícia Fagundes para estar ao meu lado na direção. Ter a Patrícia foi fundamental no andamento do processo. Ela era muito organizada e tinha um enorme senso de planejamento e de direção. Tinha um olhar apurado e era excelente ensaiadora. Trouxemos a diretora paulista Ariela Goldmann para fazer um trabalho de preparação corporal e coreografia das cenas de violência. Cenas de brigas e porradas.

 A frente do elenco estava Vera Mesquita, atriz de grande força e intensidade, dedicada ao extremo, emocional. Ela era Neusa Sueli, a protagonista da peça. A pedra no sapato Neusa Sueli era seu cafetão Vado, encarnado pelo excelente ator Pinduca Gomes. O personalíssimo e consagrado ator Renato Del Campão, afiadíssimo, inteiro em cena, verdadeiro, vivendo Veludo, homossexual funcionário da pensão que o casal vive e que inferniza a vida do Vado.

 Confesso que tentei engessar a veia cômica do Pinduca e segurar a veia histriônica do Renato. Eu queria que a peça fosse dramática. Tensa do princípio ao fim. Hoje eu me arrependo disso e dou razão a eles. Penso que eu devia ter aproveitado o material que eles me ofereciam.

Em 2008 assisti uma montagem de A Navalha na Carne com o conhecido ator Gero Camilo no papel de Veludo. O espetáculo parecia uma comédia. O elenco provocava intencionalmente o riso da plateia. Principalmente, Gero Camilo que abusava dos cacos”. O clima só “pesavana cena final. Foi aí que entendi que eu havia engessado o Pinduca. Ele era (esse “era” não é porque ele morreu, é porque ele parou de fazer teatro) um ator que exalava simpatia. Tinha o dom do improviso. Tinha o dom da graça. Na minha concepção o Pinduca era um verdadeiro Maradona da comédia.

 Só quando assisti esta versão de A Navalha na Carne me arrependi de ter cortado os cacos do Renato e as piadas certeiras e inteligentes que os dois faziam. Com certeza, foi minha inexperiência e insegurança que me levou a reprimir a veia dos atores. Eu estava completamente imbuído do drama que eu via na peça. Minha leitura da peça era mais sombria, minha concepção do espetáculo não permitia que o Pinduca nem o Renato se soltassem da forma como eles costumavam fazer. Eu queria que os atores atuassem noutra nota.

 Eu já conheci o Renato colocando cacos” engraçados em peças que ele atuava. Eu queria ver outro Renato. Eu queria ver o Veludo, o Vado. Não me interessava que os dois atuassem da forma que eles mais sabiam fazer. É claro que o Pinduca e o Renato se potencializavam no improviso e na inclusão de cacos engraçados. Eu ria e pedia pra tirar. Me arrependo muito. A peça ganharia em graça, em vida, em vigor dramático.

 Desde as primeiras formulações do projeto, eu tinha intensão de trabalhar com o Renato del Campão. Eu acreditava que ele tinha estilo. Tinha força. Tinha tudo a ver com a peça, com o universo dramatúrgico do Plínio Marcos. Minha imagem de Neusa Sueli era a Adriane Mottola. Quando eu lia a peça e fechava os olhos eu via a Adriane fazendo o papel. Na época ela estava (como sempre) envolvida nas produções da Cia. Stravaganza. Mas quando eu fechei os olhos e vi a Vera Mesquita fazenda a personagem eu não tive dúvida. Na época ela era uma leoa com fome de teatro. A Vera fazia com que a humilhação da Neusa Sueli arrancasse lágrimas da plateia. E aplausos.

 É muito difícil, agora, na distância do tempo falar sobre os resultados. Lembro que eu fiquei muito satisfeito. Lembro que os comentários eram bons. Há que se considerar que só chegam aos nossos ouvidos os bons comentários. As opiniões favoráveis. As coisas ruins, aquelas que poderiam nos ajudar a crescer a gente não fica sabendo. São comentadas somente na ausência dos interessados.

Eu me identifiquei totalmente com o resultado, não só da estreia, mas, depois, com o desenvolvimento das apresentações. É encantador ver uma peça crescendo. Acho que a trilogia foi um excelente cartão de visita meu. Eu disse a que vinha. Minha proposta tinha risco, tinha uma certa dose de originalidade, ousadia e transgressão. Tinha uma marca política. Botei a cara a tapa e me senti vitorioso. É bom demais ver a gente mesmo crescendo e aprendendo.


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