Como de costume na noite de estreia chegamos cedo no Arena. Muita coisa
ainda para terminar. A peça estava bem ensaiada. O trio do elenco estava muito
coeso e cheio de energia. Se davam bem e se estimulavam, se pilhavam
uns aos outros. A medida que a tarde passava e gente
sentia o nervosismo aumentar. A gente tinha feito um ensaio geral
sensacional no dia anterior. Combinações gerais entre os atores, passagem de
algumas cenas. Passagem de luz. Tudo vai se aprontando.
Tinha tudo pra dar certo.
Dezessete horas. Três horas nos separavam do
nascimento da peça.
Inauguração do primeiro ato do Projeto Teatro Brasileiro. Eram
muitos convidados. Nossos amigos, alguns colegas de teatro, “gente importante” convidada pela produção. Muita gente
viria assistir nossa estreia. Repassar os detalhes do cenário. Revisar os detalhes dos figurinos. Os detalhes das cenas. Dezoito horas. Saí um
pouco do ambiente denso do interior do teatro. Fui tomar um ar. Não me lembro
ao certo, mas acho que ainda fumava naquela época. Se eu fumava, certamente,
tinha saído pra fumar um cigarro.
Tomei foi um susto. Não acreditei no que eu estava vendo. Na época a SMOV andava há mais de quatro meses fazendo uma obra de
restauração das escadarias do chamado Viaduto da Borges. Até aí tudo bem. Já
estávamos acostumados com a movimentação do pessoal da
prefeitura por ali. Mas, acontece que eles resolveram despejar um caminhão de
areia na entrada da escadria da Duque. Era muita areia. Um cômoro
de areia impedia o acesso à escadaria que dá direto no Arena.
Simplesmente não tinha como ninguém chegar no Teatro de Arena vindo pela Av.
Duque de Caxias. E é óbvio que a maioria do público
chega pela Duque.
Enluqueci. Um tremendo stress adicional. Desci as
escadas e fui lá
embaixo do viaduto conversar com o encarregado da obra
que ficava numa casinha montada pros operários trocarem de roupa. Falei com educação
mas com muita firmeza. O cara olhou pra minha cara e viu que eu não ia
desistir. Falou que era final de expediente. Que não podia fazer nada. Eu disse
que ele tinha que fazer pois ele seria o responsável direto por estragar
todo um trabalho de meses e destruir a estreia da peça no teatro mais histórico
e importante da cidade. Falei que o governador havia confirmado a presença.
Falei que a Dona Eva Sopher havia confirmado presença. O cara decidiu me
ajudar. Convocou três ou quatro funcionários
e fomos até lá em cima desobstruir a passagem. Situação terrível.
“A Navalha na Carne” foi a primeira a estrear. Depois de muitos anos eu
voltava a assinar a direção de um espetáculo. Nada podia dar errado. Eu havia
convidado a Patrícia Fagundes para estar ao meu lado na direção. Ter a Patrícia
foi fundamental no andamento do processo. Ela era muito organizada e tinha um
enorme senso de planejamento e de direção. Tinha um olhar apurado e era
excelente ensaiadora. Trouxemos a diretora paulista Ariela Goldmann para
fazer um trabalho de preparação corporal e coreografia das cenas de violência. Cenas de brigas e porradas.
A frente do elenco estava Vera Mesquita, atriz de grande força e intensidade, dedicada ao extremo,
emocional. Ela era Neusa Sueli, a protagonista da peça. A pedra no sapato Neusa Sueli era seu cafetão Vado, encarnado pelo excelente
ator Pinduca Gomes. O personalíssimo e
consagrado ator Renato Del Campão, afiadíssimo, inteiro em cena, verdadeiro,
vivendo Veludo, homossexual funcionário da pensão que o casal vive e que
inferniza a vida do Vado.
Confesso que tentei engessar a veia cômica do Pinduca e segurar a veia
histriônica do Renato. Eu queria que a peça fosse dramática. Tensa do princípio
ao fim. Hoje eu me arrependo disso e dou razão a eles.
Penso que eu devia ter aproveitado o material que eles me
ofereciam.
Em 2008 assisti uma
montagem de A Navalha na Carne com o conhecido ator Gero Camilo no papel de Veludo. O espetáculo parecia uma comédia. O elenco provocava intencionalmente o riso
da plateia. Principalmente, Gero Camilo que abusava dos “cacos”. O
clima só “pesava” na cena final. Foi aí
que entendi que eu havia
engessado o Pinduca. Ele era (esse “era” não é porque
ele morreu, é porque ele parou de
fazer teatro) um ator que
exalava simpatia. Tinha o dom do improviso. Tinha o dom da graça. Na minha
concepção o Pinduca era um
verdadeiro Maradona da comédia.
Só quando
assisti esta versão de A Navalha na Carne me arrependi de ter cortado os cacos do Renato e as piadas certeiras e
inteligentes que os dois
faziam. Com certeza, foi
minha inexperiência e insegurança que me levou a reprimir a
veia dos atores. Eu estava completamente imbuído do drama que eu via na peça. Minha leitura da
peça era mais sombria, minha concepção do espetáculo não permitia que o Pinduca
nem o Renato se soltassem da forma como
eles costumavam fazer. Eu queria que os atores atuassem noutra
nota.
Eu já conheci o Renato colocando “cacos” engraçados em peças que ele atuava. Eu queria ver outro Renato. Eu
queria ver o Veludo, o Vado. Não me interessava que os dois atuassem da forma
que eles mais sabiam fazer. É claro que o Pinduca e o Renato se potencializavam no improviso e na inclusão de cacos engraçados. Eu ria e pedia pra tirar. Me arrependo muito. A peça ganharia em graça, em vida, em vigor dramático.
Desde as primeiras formulações do projeto, eu tinha intensão de trabalhar
com o Renato del Campão. Eu acreditava que ele tinha estilo. Tinha força. Tinha tudo a ver com a
peça, com o universo dramatúrgico do Plínio Marcos.
Minha imagem de Neusa Sueli era a Adriane Mottola. Quando eu lia a peça e fechava os olhos eu via a Adriane fazendo o papel. Na época ela estava (como sempre) envolvida nas produções da Cia. Stravaganza. Mas quando eu fechei os olhos e vi a Vera
Mesquita fazenda a personagem eu não tive dúvida. Na época ela era uma leoa com
fome de teatro. A Vera fazia com que a humilhação da Neusa Sueli arrancasse
lágrimas da plateia. E aplausos.
É muito difícil, agora, na distância
do tempo falar sobre os resultados. Lembro que eu
fiquei muito satisfeito. Lembro que os comentários
eram bons. Há
que se considerar que só chegam
aos nossos ouvidos os bons comentários. As opiniões
favoráveis. As coisas “ruins”, aquelas que poderiam
nos ajudar a crescer a gente não fica sabendo. São comentadas somente na ausência dos interessados.
Eu me identifiquei totalmente com o resultado, não só da estreia, mas, depois, com o
desenvolvimento das apresentações. É encantador ver uma peça crescendo. Acho
que a trilogia foi um excelente cartão de visita meu. Eu disse a que vinha.
Minha proposta tinha risco, tinha uma certa dose de originalidade, ousadia e
transgressão. Tinha uma marca política. Botei a cara a tapa e me senti vitorioso. É bom demais ver a gente
mesmo crescendo e aprendendo.
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