MEMÓRIA 20 - EU E O PLÍNIO MARCOS

 


Escrever sobre Arena Conta Plínio Marcos e relembrar as histórias de cada uma das montagens me fez pensar sobre minha ligação com Plínio Marcos e voltar as minhas origens teatrais. Em 1976 fiz a minha primeira peça inteira. Antes havia participado somente de cenas. Atuando ou dirigindo pequenas cenas. “Quando as Máquinas Param” foi o primeiro espetáculo que eu protagonizei. Durante o processo de ensaios eu fui para a biblioteca do Instituto de Artes ler todos os livros que tivessem uma linha sobre o Plínio Marcos. Li as peças de teatro do Plínio. Li artigos do Plínio nas revistas Veja e Isto É, no tempo que estas revistas eram dirigidas pelo Mino Carta.

A montagem era um trabalho de aula da disciplina de Direção V, dirigida pelo Paulo Flores que, na época, estava começando a sua fulgurante e consistente trajetória. Anos mais tarde, Paulo Flores com seu talento e determinação, viria a ser o fundador do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz que figura entre os cinco mais importantes grupos de teatro do Brasil.

 O teatrinho do DAD, que naquela época ainda não se chamava Alziro Azevedo, estava completamente lotado por alunos de todas as turmas e professores. O grande frio na barriga pela primeira vez. A peça começou e as pessoas riam muito. Eu fiquei apavorado. Estava fazendo um drama e a plateia achava engraçado. As risadas foram aumentando até a quinta cena da peça. Na cena 5 se fez o maior silêncio que eu já havia escutado. O silêncio era palpável, legítimo, dramático. Que maravilha. Que sensação indescritível estar em cena, tocar o público, receber os aplausos. Sem dúvida nenhuma era isso o que eu queria pra minha vida.

 O ditador da vez era o general Ernesto Geisel, o AI 5 continua em vigor e o metalúrgico Manuel Fiel Filho é encontrado morto nas dependências do DOI-CODI que eram centros de tortura e assassinato de pessoas que se opunham à ditadura militar. O Plínio Marcos era o artista mais censurado e perseguido pelo governo que tentava calar e proibir as palestras que ele dava em universidades. Aqui em Porto Alegre ele foi proibido de falar no DAD pelo professor Luiz Paulo Vasconcellos, que na época era diretor do IA e não autorizou a realização de um debate com a participação do Plínio. A palestra foi transferida pro Teatro de Arena. Era uma maravilha escutar o Plínio Marcos vociferando contra a ditadura militar. 

 Depois, foi só em 1990, quando fui convidado pelo diretor Camilo de Lélis pra fazer “Barrela”, que reencontrei Plínio Marcos. “Barrela” foi a primeira peça que o Plínio escreveu em 1958. Uma paulada no estômago. Uma denúncia contra o sistema prisional tão forte que a peça permaneceu proibida durante 21 anos. De novo Plínio Marcos. De novo atuar naquela densidade dramática, retratando aqueles personagens retirados da marginalidade. Eu fazia o Bereco, o preso que mandava em todo mundo mas que é obrigado a arregar quando a galera se volta contra ele.

 A peça era cheia de pontos altos. A trilha sonora que o Sérgio Olivé executava ao vivo.  As interpretações certeiras dos atores Elison Couto e João Luís Martinez nas cenas entre os personagens Tirica e Portuga. A cena em que o Bereco entrega o garoto pra galera fazer o que quisesse. A cena da curra. Em um determinado momento da peça o Camilo adicionou um movimento corporal, um balanço, que colocava a ação dentro de um grande barco. Um golpe de direção genial que causava uma ruptura e acrescentava uma metáfora na peça que era muito linda e dava um prazer enorme de fazer. Era bom estar em cena dando voz as denúncias que o Plínio Marcos estava fazendo ao expor a realidade dos presídios brasileiros. O Plínio sempre me representou.

 Em “Barrela” eu trabalhei pela primeira vez com aquele que viria a ser mais um companheiro de estrada: o ator João França. Na época, o França estava dando seus primeiros passos na carreira teatral, e viria a se tornar um excelente e requisitado ator de teatro, cinema e televisão. Precoce e recentemente falecido, João França além de um grande ator era um colega maravilhoso. Conhecido na classe teatral por ser sempre o último a sair do camarim. Ninguém ganhava dele. O responsável pela chave do teatro tinha que implorar pro França sair do camarim pra que ele pudesse fechar o teatro e ir embora pra casa. No elenco ainda tinha o Jon Kruyer, também falecido, e Milton Brum que fazia o Garoto que sofre a barrela.

 Depois, 1997, eu mesmo dirigi “A Navalha na Carne”, “Dois Perdidos Numa Noite Suja” e “Abajur Lilás”, as três peças que compunham “Arena Conta Plínio Marcos” (Memórias 16, 17, 18 e 19). Dose tripla de Plínio Marcos. Na ocasião das montagens eu falava muito com o Plínio Marcos pelo telefone. Aliás, era ele que ligava pra mim nos horários mais absurdos. Algumas vezes ele estava de bom humor e a gente conversava sobre teatro, sobre política, sobre os ensaios e até sobre futebol. Mas, às vezes ele me ligava furioso, me chamava de filho da puta, produtor escroto que queria enriquecer às custas das peças dele. E aí a gente brigava muito e acabava com ele indignado desligando o telefone na minha cara pra encerrar a conversa.

Do ano 2000 até 2005 eu fui oficineiro contratado pela Descentralização da Cultura. Trabalhei na Vila Wenceslau Fontoura, na Vila dos Eucaliptos e no Parque dos Maias. Os garotos da Wenceslau eram tão agressivos e grosseiros com as gurias que elas foram abandonando a oficina de teatro. Enquanto lidávamos com essa questão a saída foi encenar “Barrela”. Eles não queriam mais uma vez fazer uma pecinha falando dos problemas da Vila. Queriam fazer uma peça de verdade. Então apresentei a peça do Plínio Marcos pra eles. Adoraram.

 

Pra evitar a cobrança de direitos autorais a encenação se chamava “Curra” e, cá entre nós, ficou muito boa. Puro teatro. Com o elenco dos guris da Vila Wenceslau Fontoura a peça ficou pura adrenalina. (Pra esclarecer: a questão com a saída das garotas só foi resolvida no ano seguinte quando eles pediram desculpas e elas voltaram pra oficina e a gente fez “O Piquenique no Front” do Fernando Arrabal). 

 Finalmente, em 2010 lá estava eu montando Plínio Marcos de novo. Desta vez se tratava de uma adaptação da novela policial e peça de teatro “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, última peça do Plínio, escrita em 1995, quatro anos antes de sua morte. Conta a lenda que a história da peça se baseia em fatos acontecidos quando o jovem Plínio Marcos, aos 16 anos, atraído por uma garota, entrou para um circo em Santos, sua cidade natal, onde atuou como palhaço. O espetáculo foi ensaiado e apresentado com o nome de “O Circo do Anão do C* Grande” na Sala 402 da Usina do Gasômetro, que era o espaço ocupado pelo Depósito de Teatro no projeto Usina das Artes.

 Há dois anos atrás, naquela era antes da pandemia, eu andava conversando por e-mail com Ricardo Barros, que é um dos filhos do Plínio Marcos, com a ideia de fazer um ciclo de peças do Plínio reunidas em um projeto chamado “Começaria tudo outra vez”. Veremos?

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