Escrever sobre Arena Conta Plínio Marcos e relembrar as histórias de cada
uma das montagens me fez pensar sobre minha ligação com Plínio Marcos e voltar
as minhas origens teatrais. Em 1976 fiz a minha primeira peça inteira. Antes
havia participado somente de cenas. Atuando ou dirigindo pequenas cenas.
“Quando as Máquinas Param” foi o primeiro espetáculo que eu protagonizei.
Durante o processo de ensaios eu fui para a biblioteca do Instituto de Artes
ler todos os livros que tivessem uma linha sobre o Plínio Marcos. Li as peças
de teatro do Plínio. Li artigos do Plínio nas revistas Veja e Isto É, no tempo
que estas revistas eram dirigidas pelo Mino Carta.
A montagem era um trabalho de aula da disciplina de Direção V, dirigida
pelo Paulo Flores que, na época, estava começando a sua fulgurante e
consistente trajetória. Anos mais tarde, Paulo Flores com seu talento e
determinação, viria a ser o fundador do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz que figura
entre os cinco mais importantes grupos de teatro do Brasil.
O teatrinho do DAD, que naquela época ainda não se chamava Alziro Azevedo,
estava completamente lotado por alunos de todas as turmas e professores. O
grande frio na barriga pela primeira vez. A peça começou e as pessoas riam
muito. Eu fiquei apavorado. Estava fazendo um drama e a plateia achava
engraçado. As risadas foram aumentando até a quinta cena da peça. Na cena 5 se
fez o maior silêncio que eu já havia escutado. O silêncio era palpável,
legítimo, dramático. Que maravilha. Que sensação indescritível estar em cena,
tocar o público, receber os aplausos. Sem dúvida nenhuma era isso o que eu
queria pra minha vida.
O ditador da vez era o general Ernesto Geisel, o AI 5 continua em vigor e o metalúrgico Manuel Fiel Filho é encontrado morto nas
dependências do DOI-CODI que eram centros de tortura e assassinato de pessoas
que se opunham à ditadura militar. O Plínio Marcos era o artista mais censurado
e perseguido pelo governo que tentava calar e proibir as palestras que ele dava
em universidades. Aqui em Porto Alegre ele foi proibido de falar no DAD pelo
professor Luiz Paulo Vasconcellos, que na época era diretor do IA e não
autorizou a realização de um debate com a participação do Plínio. A palestra
foi transferida pro Teatro de Arena. Era uma maravilha escutar o Plínio Marcos
vociferando contra a ditadura militar.
Depois, foi só em 1990, quando fui convidado pelo diretor Camilo de Lélis
pra fazer “Barrela”, que reencontrei Plínio Marcos. “Barrela” foi a primeira
peça que o Plínio escreveu em 1958. Uma paulada no estômago. Uma denúncia
contra o sistema prisional tão forte que a peça permaneceu proibida durante 21
anos. De novo Plínio Marcos. De novo atuar naquela densidade dramática,
retratando aqueles personagens retirados da marginalidade. Eu fazia o Bereco, o
preso que mandava em todo mundo mas que é obrigado a arregar quando a galera se
volta contra ele.
A peça era cheia de pontos altos. A trilha sonora que o Sérgio Olivé
executava ao vivo. As interpretações
certeiras dos atores Elison Couto e João Luís Martinez nas cenas entre os
personagens Tirica e Portuga. A cena em que o Bereco entrega o garoto pra
galera fazer o que quisesse. A cena da curra. Em um determinado momento da peça
o Camilo adicionou um movimento corporal, um balanço, que colocava a ação
dentro de um grande barco. Um golpe de direção genial que causava uma ruptura e
acrescentava uma metáfora na peça que era muito linda e dava um prazer enorme
de fazer. Era bom estar em cena dando voz as denúncias que o Plínio Marcos
estava fazendo ao expor a realidade dos presídios brasileiros. O Plínio sempre
me representou.
Em “Barrela” eu trabalhei pela primeira vez com aquele que viria a ser mais
um companheiro de estrada: o ator João França. Na época, o França estava dando
seus primeiros passos na carreira teatral, e viria a se tornar um excelente e
requisitado ator de teatro, cinema e televisão. Precoce e recentemente
falecido, João França além de um grande ator era um colega maravilhoso.
Conhecido na classe teatral por ser sempre o último a sair do camarim. Ninguém
ganhava dele. O responsável pela chave do teatro tinha que implorar pro França
sair do camarim pra que ele pudesse fechar o teatro e ir embora pra casa. No
elenco ainda tinha o Jon Kruyer, também falecido, e Milton Brum que fazia o
Garoto que sofre a barrela.
Depois, 1997, eu mesmo dirigi “A Navalha na Carne”, “Dois Perdidos Numa
Noite Suja” e “Abajur Lilás”, as três peças que compunham “Arena Conta Plínio
Marcos” (Memórias 16, 17, 18 e 19). Dose tripla de Plínio Marcos. Na ocasião
das montagens eu falava muito com o Plínio Marcos pelo telefone. Aliás, era ele
que ligava pra mim nos horários mais absurdos. Algumas vezes ele estava de bom
humor e a gente conversava sobre teatro, sobre política, sobre os ensaios e até
sobre futebol. Mas, às vezes ele me ligava furioso, me chamava de filho da
puta, produtor escroto que queria enriquecer às custas das peças dele. E aí a
gente brigava muito e acabava com ele indignado desligando o telefone na minha
cara pra encerrar a conversa.
Do ano 2000 até 2005 eu fui oficineiro contratado pela Descentralização da
Cultura. Trabalhei na Vila Wenceslau Fontoura, na Vila dos Eucaliptos e no
Parque dos Maias. Os garotos da Wenceslau eram tão agressivos e grosseiros com
as gurias que elas foram abandonando a oficina de teatro. Enquanto lidávamos
com essa questão a saída foi encenar “Barrela”. Eles não queriam mais uma vez
fazer uma pecinha falando dos problemas da Vila. Queriam fazer uma peça de
verdade. Então apresentei a peça do Plínio Marcos pra eles. Adoraram.
Pra evitar a cobrança de direitos autorais a encenação se chamava “Curra”
e, cá entre nós, ficou muito boa. Puro teatro. Com o elenco dos guris da Vila
Wenceslau Fontoura a peça ficou pura adrenalina. (Pra esclarecer: a questão com
a saída das garotas só foi resolvida no ano seguinte quando eles pediram
desculpas e elas voltaram pra oficina e a gente fez “O Piquenique no Front” do
Fernando Arrabal).
Finalmente, em 2010 lá estava eu montando Plínio Marcos de novo. Desta vez se
tratava de uma adaptação da novela policial e peça de teatro “O Assassinato do
Anão do Caralho Grande”, última peça do Plínio, escrita em 1995, quatro anos
antes de sua morte. Conta a lenda que a história da peça se baseia em fatos
acontecidos quando o jovem Plínio Marcos, aos 16 anos, atraído por uma garota,
entrou para um circo em Santos, sua cidade natal, onde atuou como palhaço. O
espetáculo foi ensaiado e apresentado com o nome de “O Circo do Anão do C*
Grande” na Sala 402 da Usina do Gasômetro, que era o espaço ocupado pelo
Depósito de Teatro no projeto Usina das Artes.
Há dois anos atrás, naquela era antes da pandemia, eu andava conversando
por e-mail com Ricardo Barros, que é um dos filhos do Plínio Marcos, com a
ideia de fazer um ciclo de peças do Plínio reunidas em um projeto chamado
“Começaria tudo outra vez”. Veremos?
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