Na segunda-feira depois da
estreia de “Navalha na Carne” intensificamos os ensaios
de “Dois Perdidos numa Noite Suja”. Peça icônica, escrita por
Plínio Marcos (1933-1999) em 1966. A estreia, no mesmo ano, foi para poucas
pessoas no Bar Ponto de Encontro em São Paulo. Com direção de Benjamin Cattan e
Plínio Marcos com o próprio Plínio no papel de Paco e Ademir Rocha como Tonho.
A peça causou sensação e gerou duas novidades uma boa e outra bem ruim: fez um sucesso
enorme no Rio de Janeiro dirigida por Fauzi Arap e foi proibida pela censura.
Na
década de 1960 Plínio Marcos já era considerado um dos nossos grandes
dramaturgos. E também uma figurinha carimbada pelo Serviço de Censura de
Diversões Públicas que já existia desde
antes da instauração da ditadura militar. “Barrela”, sua primeira peça, havia
sido proibida em 1959 e foi liberada por intervenção do Paschoal Carlos Magno
apenas para uma única apresentação. A partir do ditador Castelo Branco, Plínio
passou de censurado para a condição de autor perseguido pelo regime militar.
Virou “autor maldito” e durante os 21 anos de duração do pesadelo verde oliva
viu todas as suas peças teatrais e muitos dos seus textos jornalísticos serem
engavetados pela censura.
Trinta
anos depois, com a censura extinta pela nova constituição de 1988, era minha
vez de colocar em cena a mais famosa peça de Plínio Marcos. Na direção eu
tinha, mais uma vez, a companhia da minha amiga e parceira do projeto Patrícia Fagundes. Ela era a assistente, a conselheira, a ensaiadora. Presença imprescindível. Para a
trilha sonora eu tinha músicas do Arthur de Faria, músico de primeira linha. E
no elenco eu tinha duas feras: Carlos Azevedo e Fernando Kike Barbosa.
Carlos, é um ator de excelente caráter, com uma facilidade incrível para desenhar seu personagem, ator técnico, racional,
inteligente, rápido, atributos que equilibram sua natural displicência. Carlos
impunha força e vivacidade na defesa do Paco Maluco Perigoso, tocador de gaitinha
de boca, dono dos sapatos novos, tormento do Tonho. No seu olhar brilhava a
maldade e mesquinhez do seu personagem.
O Kike, angustiado (no bom
sentido), excelente, dedicado, emocional até a medula dos seus ossos, ator
inteligente e meticuloso, que coloca muita atividade interior nos personagens
que faz. A gente tinha feito o “Barão nas Árvores da Redenção” (MEMÓRIA 04).
Ele fazia o Tonho, o personagem que precisa só de um bom sapato para dar certo
na vida e que acaba se tornando Tonho Maluco Perigoso numa virada sensacional,
lance de gênio, que o Plínio Marcos faz acontecer no final da peça.
Os dois se completavam numa
química teatral perfeita. Uma simbiose. Um ritmo alucinado e
alucinante num crescente que levava a plateia a uma tensão máxima na cena final. Até mesmo as pequenas diferenças de personalidade, os
ínfimos atritos ou divergências que possam ter surgido, se transformavam em
faíscas positivas benéficas para o espetáculo. A diferença entre a
personalidade do Carlos e do Kike alimentavam a diferença entre a visão do
mundo do Paco a a do Tonho. Diferenças que atuavam positivamente na exacerbação
da polaridade dramática entre os dois personagens
criados magistralmente pelo Plínio.
Com a distância do tempo é
difícil de afirmar, mas creio que “Dois Perdidos” talvez tenha sido o
espetáculo da trilogia que mais alcançou os seus objetivos. O público ficava
fascinado, encantado, ligado, eletrizado pela performance dos dois atores, pelo
embate que se dava em cena. Mais o ambiente claustrofóbico proposto pelo
cenário criado pelo Nelsinho Magalhães (MEMÓRIA 16). Somados ao ritmo da
encenação era realmente arrebatador. Sem falsa modéstia, eu achava a peça era muito boa. E cá
entre nós, o texto é uma
obra-prima de Plínio
Marcos. Recebi minha primeira indicação
para melhor diretor e a peça foi indicada para melhor espetáculo. Ficou apenas nas indicações, mas significou uma vitória considerável.
Como a “memória” de hoje é
sobre um espetáculo com elenco pequeno me sobra espaço para contar dois
“causos” que aconteceram durante a temporada da peça no Teatro de Arena. São
eles: o incrível sumiço da gaitinha de boca e uma pessoa roncando atrás do
tapume do cenário. Com certeza, tanto o Kike quanto o Carlos vão se lembrar
destas duas passagens e de outras que estão guardadas nas memórias deles.
Na peça tem dois objetos
geradores de conflito: o par de sapatosdurante e a gaita de boca. Ambos objetos
pertencem ao personagem Paco. Já na primeira cena tem uma briga porque o Tonho
quer que o Paco pare de tocar a maldita gaita ou que pelo menos toque mais
baixo. A segunda cena da peça começa com uma nova desavença em torno da gaita.
O assunto de todo início da cena gira em torno da gaita. Pois, numa
apresentação, durante uma briga violenta que acontece entre os dois na primeira
cena, no meio da confusão, eis que a gaita se perde, se esconde num vão do
cenário. Quando a cena 2 começa o Carlos percebe que tá sem a gaita. Olha pro
Kike. Numa troca de olhares silenciosos os atores comunicam o problema um ao
outro. Enquanto conversam seus olhos procuram a gaita. Não acham a gaita e têm
que resolver a situação na base da improvisação. Conversam sobre uma hipotética
gaita e vão em frente até chegar no próximo assunto e levar a peça adiante.
No segundo “causo” os atores
estão em cena, a peça está rolando, quando, de repente eles escutam que tem
alguém roncando na plateia. O ronco vem da plateia esquerda do Arena. Um pouco
abafado pelos tapumes do cenário mas perfeitamente audível. E se eles escutavam
era certo quea plateia também ouvia. Não havia o que eles pudessem fazer senão
levar adiante a apresentação. No final, eles vem me falar sobre o caso.
Perguntam se eu não vi que tinha alguém dormindo na plateia. Questionam porque
eu não fui lá acordar a pessoa e parar o ronco que atrapalhava a peça. Vexado
tive que confessar que era eu quem estava dormindo no cantinho escuro da
plateia da esquerda escondido pelo tapume do cenário. Levei uma bronca
Pra terminar uma frase do
texto “Perdidos entre quatro paredes” de Antônio Roberto Gerin: “Plínio Marcos
tinha fé no teatro como fonte primordial do verdadeiro grito.” Se você quiser
saber mais sobre o Plínio Marcos e sua obra pode encontrar em:
https://www.pliniomarcos.com/dados/barrela.htm
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