Para me manter fiel a ideia de que o teatro era minha profissão tive que
trabalhar muito. A parte boa era quando exercia as funções de ator e/ou
diretor. A parte mais ou menos era fazer bilheteria, produção e vendas. E a
parte ruim era atender as exigências dos burocratas e dos poderosos de plantão.
Entra ano e sai ano, dias de semana e feriados, todos os dias eram de trabalho.
Existem anos que se destacam pelo pouco trabalho como agora, e anos que
transbordam. Foi o caso do ano de 2004, ano intenso, de muito trabalho e de
muitas realizações.
Em 2004 eu era oficineiro da Descentralização da Cultura e dava aula de
teatro na Vila Wenceslau Fontoura e na Vila dos Eucaliptos. Em janeiro estreei
minha primeira montagem sobre um texto de Bertolt Brecht, uma adaptação minha
para o texto “O Círculo de Giz Caucasiano”. Em maio foi a estreia de Medusa de
Rayban, uma péssima experiência de encenar Mário Bortolotto. Em junho estreou
Hilda Hilst in Claustro no Hospital São Pedro e em julho estreou o espetáculo
de dança “Grávida”, que foi minha primeira e única incursão como coreógrafo.
Com os alunos da Wenceslau eu montei “Jogos na Hora da Sesta” e com a turma
da Vila dos Eucaliptos eu fiz uma peça baseada em pequenas cenas que criamos
durante o curso e que tinha o nome de “O que mata é o Preconceito”. “Jogos”
serviu de reconciliação entre as meninas e os meninos (MEMÓRIA 20) e foi
apresentado numa mostra da Descentralização no Teatro Renascença. O
“Preconceito” se apresentou no Teatro de Câmara Túlio Piva. Houve uma época em
que alguns espetáculos produzidos no âmbito da Descentralização faziam uma
circulação apresentando-se em outros bairros, mas em 2004 isso não acontecia
mais. Hoje acho que não tem mais nem as oficinas de teatro. Éramos felizes e
não sabíamos.
“O Círculo” foi encenado para se apresentar no palco sanduíche. O público
ocupa os dois lados da área cênica e o espetáculo acontece no meio. Este
formato teatral foi amplamente explorado nos espetáculos que encenei no
Depósito da Benjamin. Virou uma pesquisa na qual cada espetáculo era uma
variação sobre o tema. O “Beijo” e o “Boca” já eram neste formato em 1998. O
“Pagador” mesmo se apresentando na frente das igrejas se utilizava deste
recurso na disposição da plateia. Com “Dr. QS” a gente radicalizou a proposta e
foi fundo na pesquisa das possibilidades desta linguagem.
“Medusa de Rayban” aconteceu no espaço que viria a ser o Teatro do Bourboun
Country. A gente queria fazer a peça num posto de gasolina abandonado ou num
estacionamento de shopping. Depois de muita procura e negociação encontramos um
pavilhão enorme sem uso que foi cedido pelo Zaffari pra gente fazer a peça.
“Hilda Hilst in Claustro” ocupou um pátio interno do Hospital Psiquiátrico São
Pedro, que por uma fantástica coincidência se chamava Pátio H.
Escaldado pelas experiências anteriores do “Barão” e do “Pagador”, lá
estavam eu novamente trabalhando em espaços teatrais não-convencionais.
Inventando teatros onde eles não existem. Inseminando o imaginário das pessoas
com a possibilidade da fantasia ocupar espaços diferentes daqueles que estão
préestabelecidos para a ocorrência do ato teatral. O Recanto Africano, o adro
da igreja, o pavilhão desocupado e as celas de ex-internas do HSP, recebiam o
evento para si com mais facilidade e doçura do que os encarregados e
encarregadas de liberar estes locais. Impressionante.
Além da movimentação teatral atípica, o ano de 2004 também me propiciou
atuar em duas realizações produzidas para a TV Educativa/RS. Eu fiz uma pequena
participação em “As Parceiras”, adaptação homônima do primeiro romance da
escritora Lia Luft, roteirizado e dirigido com muita sensibilidade e domínio
por Marta Biavaschi. E desempenhei um papel importante em “Travessia”,
roteirizado e dirigido por Diego de Godoy sobre um conto do escritor gaúcho Sérgio Faraco. Diego fez o filme com muita firmeza, com um bom humor
inquebrantável e com muito carinho para conduzir o elenco.
Ainda no âmbito do audiovisual eu participei da criação do roteiro e atuei
no segundo filme produzido pela Bagasexta Muvis, que foi “O Homem que
Xeroqueava”, nosso terceiro longa com direção do Júlio Andrade e do Dimitre
Lucho. A gente aproveitava o lançamento de um filme do cineasta Jorge Furtado
pra produzir a nossa versão que era apresentada na Bagasexta (Memória 02). Já
havíamos feito isso com “Era Uma Uns Verão” parodiando o filme do Jorge Furtado
que era “Houve uma vez dois verões”.
Duas destas experiências tiveram componentes inéditos. Pela primeira vez eu
encarava encenar um texto do dramaturgo alemão e mito do teatro Bertolt Brecht.
“O Círculo de Giz Caucasiano” é uma obra prima do teatro épico escrita por
Brecht em 1944, no auge da I Guerra Mundial. Eu fiz uma adaptação da peça e dei
o nome de “O Círculo de Giz”. Não sei se ficou muito épico mas a montagem era
muito boa. Mesmo assimo só voltei ao Brecht muitos anos depois com a encenação
de “A Ópera dos Mendigos” baseada na “Ópera dos Três Vinténs”.
O outro fato inédito era que pela primeira vez eu estava assinando a
coreografia de um espetáculo de dança. Eu? Coreógrafo? Nunca pensei. A ideia
nasceu com um projeto criado pela atriz e bailarina Maria Falkembach que
inscreveu a proposta num edital e foi contemplada. A Maria fez entrevistas com
dezenas de gestantes e inclusive acompanhou algumas até o nascimento do bebe.
Com base nas entrevistas a gente construiu um roteiro e foi descobrindo cada
uma das coreografias que compunham o espetáculo.
Até então toda minha experiência com dança se resumia ao fato de que eu era
um fiel e atento espectador das companhias de dança de Porto Alegre e, quando
eu tinha acesso, de espetáculos do Ballet Corpo ou da Deborah Colker. A dança
propõe ao espectador uma chave de acesso que é diferente do teatro. Eu sinto
prazer em afinar meu olhar e decifrar os códigos, os hieróglifos, específicos
da Dança. Mas, daí a ocupar a função de coreógrafo tem uma distância
interminável.
A Maria tinha experiência como bailarina. Dançava no Terpsi com a mita
Carlota Albuquerque. Dançou no mega sucesso “Das Tripas Sentimentos” com a mita
June Machado. Tinha feito sua peça “Adélias, Marias, Franciscas...” usando seu
corpo pra comunicar a poesia de Adélia Prado.
Contudo, considero que o trunfo do time era ter a presença da bailarina
Luciane Coccaro. Nesta época, seu nome constava na lista das cinco mais
importantes bailarinas do mundo da dança de Porto Alegre. A Coccaro era talentosa
e com uma disponibilidade e um domínio corporal advindos de um rigoroso
treinamento. Ela também era do Terpsi. As duas se davam muito bem e se
entendiam nas propostas uma da outra. Ambas eram dedicadas, disciplinadas,
criativas. Era como uma dupla de volei de praia. Uma levantava e a outra
cortava. Depois era só sair pro abraço.
As coreografias foram descobertas no dia à dia dos ensaios, sendo criadas e
repetidas pelas bailarinas de acordo com estímulos que eu dava. Eu disfarçava a
insegurança com cara de quem sabia o que estava fazendo, mas confiava cegamente
nas duas intérpretes que foram as verdadeiras criadoras do espetáculo. A
Coccaro ganhou o prêmio Açorianos de Melhor Bailarina e o célebre crítico
Antônio Hohlfeldt elogiou meu trabalho e encerrou sua crítica dizendo que o
resultado “é sinal de maturidade humana e artística de todos os seus
realizadores.”
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