MEMÓRIA 22 - GRÁVIDA

 


Para me manter fiel a ideia de que o teatro era minha profissão tive que trabalhar muito. A parte boa era quando exercia as funções de ator e/ou diretor. A parte mais ou menos era fazer bilheteria, produção e vendas. E a parte ruim era atender as exigências dos burocratas e dos poderosos de plantão. Entra ano e sai ano, dias de semana e feriados, todos os dias eram de trabalho. Existem anos que se destacam pelo pouco trabalho como agora, e anos que transbordam. Foi o caso do ano de 2004, ano intenso, de muito trabalho e de muitas realizações.

 Em 2004 eu era oficineiro da Descentralização da Cultura e dava aula de teatro na Vila Wenceslau Fontoura e na Vila dos Eucaliptos. Em janeiro estreei minha primeira montagem sobre um texto de Bertolt Brecht, uma adaptação minha para o texto “O Círculo de Giz Caucasiano”. Em maio foi a estreia de Medusa de Rayban, uma péssima experiência de encenar Mário Bortolotto. Em junho estreou Hilda Hilst in Claustro no Hospital São Pedro e em julho estreou o espetáculo de dança “Grávida”, que foi minha primeira e única incursão como coreógrafo.

 Com os alunos da Wenceslau eu montei “Jogos na Hora da Sesta” e com a turma da Vila dos Eucaliptos eu fiz uma peça baseada em pequenas cenas que criamos durante o curso e que tinha o nome de “O que mata é o Preconceito”. “Jogos” serviu de reconciliação entre as meninas e os meninos (MEMÓRIA 20) e foi apresentado numa mostra da Descentralização no Teatro Renascença. O “Preconceito” se apresentou no Teatro de Câmara Túlio Piva. Houve uma época em que alguns espetáculos produzidos no âmbito da Descentralização faziam uma circulação apresentando-se em outros bairros, mas em 2004 isso não acontecia mais. Hoje acho que não tem mais nem as oficinas de teatro. Éramos felizes e não sabíamos.

 “O Círculo” foi encenado para se apresentar no palco sanduíche. O público ocupa os dois lados da área cênica e o espetáculo acontece no meio. Este formato teatral foi amplamente explorado nos espetáculos que encenei no Depósito da Benjamin. Virou uma pesquisa na qual cada espetáculo era uma variação sobre o tema. O “Beijo” e o “Boca” já eram neste formato em 1998. O “Pagador” mesmo se apresentando na frente das igrejas se utilizava deste recurso na disposição da plateia. Com “Dr. QS” a gente radicalizou a proposta e foi fundo na pesquisa das possibilidades desta linguagem.

 “Medusa de Rayban” aconteceu no espaço que viria a ser o Teatro do Bourboun Country. A gente queria fazer a peça num posto de gasolina abandonado ou num estacionamento de shopping. Depois de muita procura e negociação encontramos um pavilhão enorme sem uso que foi cedido pelo Zaffari pra gente fazer a peça. “Hilda Hilst in Claustro” ocupou um pátio interno do Hospital Psiquiátrico São Pedro, que por uma fantástica coincidência se chamava Pátio H.

 Escaldado pelas experiências anteriores do “Barão” e do “Pagador”, lá estavam eu novamente trabalhando em espaços teatrais não-convencionais. Inventando teatros onde eles não existem. Inseminando o imaginário das pessoas com a possibilidade da fantasia ocupar espaços diferentes daqueles que estão préestabelecidos para a ocorrência do ato teatral. O Recanto Africano, o adro da igreja, o pavilhão desocupado e as celas de ex-internas do HSP, recebiam o evento para si com mais facilidade e doçura do que os encarregados e encarregadas de liberar estes locais. Impressionante.

 Além da movimentação teatral atípica, o ano de 2004 também me propiciou atuar em duas realizações produzidas para a TV Educativa/RS. Eu fiz uma pequena participação em “As Parceiras”, adaptação homônima do primeiro romance da escritora Lia Luft, roteirizado e dirigido com muita sensibilidade e domínio por Marta Biavaschi. E desempenhei um papel importante em “Travessia”, roteirizado e dirigido por Diego de Godoy sobre um conto do escritor gaúcho Sérgio Faraco. Diego fez o filme com  muita firmeza, com um bom humor inquebrantável e com muito carinho para conduzir o elenco.

 Ainda no âmbito do audiovisual eu participei da criação do roteiro e atuei no segundo filme produzido pela Bagasexta Muvis, que foi “O Homem que Xeroqueava”, nosso terceiro longa com direção do Júlio Andrade e do Dimitre Lucho. A gente aproveitava o lançamento de um filme do cineasta Jorge Furtado pra produzir a nossa versão que era apresentada na Bagasexta (Memória 02). Já havíamos feito isso com “Era Uma Uns Verão” parodiando o filme do Jorge Furtado que era “Houve uma vez dois verões”. 

 Duas destas experiências tiveram componentes inéditos. Pela primeira vez eu encarava encenar um texto do dramaturgo alemão e mito do teatro Bertolt Brecht. “O Círculo de Giz Caucasiano” é uma obra prima do teatro épico escrita por Brecht em 1944, no auge da I Guerra Mundial. Eu fiz uma adaptação da peça e dei o nome de “O Círculo de Giz”. Não sei se ficou muito épico mas a montagem era muito boa. Mesmo assimo só voltei ao Brecht muitos anos depois com a encenação de “A Ópera dos Mendigos” baseada na “Ópera dos Três Vinténs”. 

 O outro fato inédito era que pela primeira vez eu estava assinando a coreografia de um espetáculo de dança. Eu? Coreógrafo? Nunca pensei. A ideia nasceu com um projeto criado pela atriz e bailarina Maria Falkembach que inscreveu a proposta num edital e foi contemplada. A Maria fez entrevistas com dezenas de gestantes e inclusive acompanhou algumas até o nascimento do bebe. Com base nas entrevistas a gente construiu um roteiro e foi descobrindo cada uma das coreografias que compunham o espetáculo.

 Até então toda minha experiência com dança se resumia ao fato de que eu era um fiel e atento espectador das companhias de dança de Porto Alegre e, quando eu tinha acesso, de espetáculos do Ballet Corpo ou da Deborah Colker. A dança propõe ao espectador uma chave de acesso que é diferente do teatro. Eu sinto prazer em afinar meu olhar e decifrar os códigos, os hieróglifos, específicos da Dança. Mas, daí a ocupar a função de coreógrafo tem uma distância interminável. 

 A Maria tinha experiência como bailarina. Dançava no Terpsi com a mita Carlota Albuquerque. Dançou no mega sucesso “Das Tripas Sentimentos” com a mita June Machado. Tinha feito sua peça “Adélias, Marias, Franciscas...” usando seu corpo pra comunicar a poesia de Adélia Prado.

 Contudo, considero que o trunfo do time era ter a presença da bailarina Luciane Coccaro. Nesta época, seu nome constava na lista das cinco mais importantes bailarinas do mundo da dança de Porto Alegre. A Coccaro era talentosa e com uma disponibilidade e um domínio corporal advindos de um rigoroso treinamento. Ela também era do Terpsi. As duas se davam muito bem e se entendiam nas propostas uma da outra. Ambas eram dedicadas, disciplinadas, criativas. Era como uma dupla de volei de praia. Uma levantava e a outra cortava. Depois era só sair pro abraço.

 As coreografias foram descobertas no dia à dia dos ensaios, sendo criadas e repetidas pelas bailarinas de acordo com estímulos que eu dava. Eu disfarçava a insegurança com cara de quem sabia o que estava fazendo, mas confiava cegamente nas duas intérpretes que foram as verdadeiras criadoras do espetáculo. A Coccaro ganhou o prêmio Açorianos de Melhor Bailarina e o célebre crítico Antônio Hohlfeldt elogiou meu trabalho e encerrou sua crítica dizendo que o resultado “é sinal de maturidade humana e artística de todos os seus realizadores.”


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