Outro dia escrevi uma triste despedida para o meu amigo Elton Manganelli.
Ao escrever fui me dando conta que no desenrolar da minha vida como pessoa e
como artista fui conhecendo e trocando com várias pessoas que se mostraram
importantíssimas para alimentar em mim o gosto pelo teatro. Pessoas que
fomentaram em mim o desejo e o exercício de ser artista. Pessoas que me
ensinaram ou que, simplesmente, estavam comigo para enfrentar crises de criação
ou de dinheiro. Suas posturas mantém até hoje acesa em mim esta convicção. Pois
é justamente sobre estas pessoas que eu quero escrever neste
texto-memória-homenagem.
Descontando breves experiências colegiais anteriores, posso dizer que
comecei a fazer teatro quando entrei no DAD/UFRGS. Aulas de improvisação com a
professora Graça Nunes. Interpretação com a professora Irene Brietzke.
Expressão Corporal com a mito Maria Helena Lopes. E direção teatral com o
professor Luiz Paulo Vasconcellos. Estes
eram alguns do time dos professores. Todos grandes artistas. Cada um deles
contribuiu para iluminar e me introduzir naquele mundo fantástico que se
descortinava a minha frente.
O outro time era o dos alunos. Colegas que, como eu, estavam ingressando
naquele mundo fantástico. Alguns com mais informações, outros sem saber nada ou
quase nada sobre teatro. Pessoas diferentes daquelas que eu conhecia. Meus
amigos do bairro eram normais e aquela gente do DAD era “louca”. Jovens cheios
de ideias pra mudar o mundo. Era 1974, eu tinha 20 anos e, apesar da ditadura
militar, o sonho ainda não tinha acabado. E eu decidi que o teatro seria meu
campo de batalha por uma nova sociedade. A tão aclamada sociedade alternativa.
Entendi que o teatro seria minha arma e trincheira.
Dentro da turma de alunos, que talvez fossem uns doze, tinha três colegas
que formavam minha turma mais próxima. Fomos nos aproximando durante o curso e
nos tornando inseparáveis durante um período de nossas vidas. O quarteto
fantástico era formado por mim, Jussindra Pereira, Rafael Baião e Paulo Flores.
A Jussindra era professora e tinha posicionamentos muito fortes. O Rafael era
mineiro, escrevia e era funcionário da Caixa Econômica Federal. O Paulo Flores
era estudante como eu e como ele morava no Centro na maioria das vezes nossos
encontros eram no apartamento dele. Discussões acaloradas sobre teatro. Sobre
política. Sobre a vida. Nossas conversas foram fundamentais para que eu criasse
minha primeira visão de teatro. Principalmente o Paulo, que tinha uma
determinação contagiante, muito contribuiu para acender em mim a paixão pelo
Teatro.
Mais adiante, em 1989/90 pra ser exato, trabalhei com a atriz e diretora
Suzana Saldanha. Entrei como substituto na peça “A Comunidade do Arco-Íris”, do
Caio Fernando Abreu e última peça do prestigiado Grupo de Teatro da Província.
Sou imensamente grato a Suzana porque ela me apresentou uma possibilidade
profissional, me ensinou os primeiros rudimentos de uma ética teatral e, além
disso, mudou minha vida quando me indicou pra fazer o Remendão na TV Guaíba.
Outro que entrou na “Comunidade” como substituto foi o ator Júlio Conte. E
aí foi nessa época que comecei a andar com o Júlio, o Camilo de Lélis, o
Deodoro Gomes e seu irmão João Luís Gomes. Através do Camilo conheci a Adriane
Azevedo e seu irmão Carlos Azevedo, a dupla Lígia Rigo e Marco Fronckowiack.
Durante um bom tempo estas pessoas foram minhas referências, modelos e
companheiros de estrada.
Depois, já nos início dos anos 1990 entraram na minha vida a atriz e
diretora Adriane Mottola e seu companheiro o ator e diretor Luiz Henrique
Palese. Foi o tempo do Decameron e da Cia. Teatro di Stravaganza que eu já
falei na Memória 08. Com eles vieram o ator Sérgio Etchichury cujas atuações eu
já tinha aplaudido em espetáculos do Ói Nóis Aqui Travéis; o cenotécnico e
iluminador Mário Cavalheiro grande companheiro de empreitadas e aventuras
amorosas; e a Liane Venturella minha
parceira incansável na produção do Decameron, hoje considerada uma grande dama
do teatro gaúcho. O talento e a vontade da Liane, sua disposição para o
trabalho, sempre me contagiaram. Eram, todos, pessoas maravilhosas, apaixonadas
pelo teatro que se dedicavam integralmente para fazer do teatro a sua
profissão.
Mas, em 1995/96, entrou na minha vida a pessoa que, talvez seja quem mais
animou a fogueira do teatro dentro de mim: Patrícia Fagundes. Amiga e
parceirona em diversos projetos e situações da minha vida. Conheci a Patrícia
em 1995 depois de assistir sua peça “O Jantar”. Me lembro de me aproximar e
puxar assunto com ela e que logo ficamos amigos. Em seguida convidei-a para ser
assistente de direção nas três peças de “Arena Conta Plínio Marcos”. Logo
adiante fizemos juntos o projeto, a adaptação do texto e a montagem de “O Barão
nas Árvores da Redenção” e criamos o projeto 2 X Nelson. Trabalhamos juntos no
espetáculo “Fronteiras de Fogo” realizado no Parque Osório, em Tramandaí, por
um produtor de São Paulo. E, de quebra, juntos, fundamos o Depósito de Teatro
concretizando meu sonho de “ter” um espaço pra trabalhar e oferecendo um novo
espaço cultural para a cidade.
Uma vez a Patrícia me contou que com 12 anos ela já sabia que queria fazer
teatro. Pra mim, que fui levado ao teatro quase por acaso, achei incrível que
alguém tomasse esta decisão tão cedo na sua vida. Minha parceria com a Patrícia
frutificou muito. Ela é uma mulher muito inteligente e articulada e uma artista
enormemente talentosa e batalhadora. Seus espetáculos são sempre desafiadores
em suas ideias e propostas estéticas. A maneira como a Patrícia encara o Teatro
estimula minha vontade de continuar fazendo também.
Por intermédio da Patrícia acabei me aproximando de outras pessoas que eu
já havia visto em cena mas que ainda não faziam parte do meu círculo de
amizade: Fernando Kike Barbosa, ator que atualmente é ligado a Cia.
Stravaganza; Álvaro Rosacosta, ator, músico e mago dos programas digitais de
edição de música e vídeo; Giselle Cecchini, grande atriz atualmente professora
da UFPEL.
Foi nesta época que conheci também a Maria Falkembach, cuja força e
entusiasmo foram decisivos nas doses de reforço que às vezes precisei tomar pra
continuar fazendo teatro. A Maria colocava toda sua enorme energia positiva na
concretização de qualquer projeto que a gente inventava. Pessoa muito do bem
que até hoje, mesmo que estejamos afastados, posso continuar dizendo: a Maria
me representa.
Junto com todas estas novas pessoas conheci a atriz Sandra Possani. A
Sandra foi (e é) uma das pessoas mais batalhadoras da dignidade da profissão
que conheci, além de ser uma atriz iluminada, dona de uma inextinguível chama
interior de criatividade e sabedoria teatral. A convivência com a Sandra
durante os anos que passamos juntos me animava todos os dias. A Sandra é o
preenchimento de ter alguém junto contigo para o que der e vier. Além de ser a
pérola do anel de qualquer elenco.
É claro que existiram muitas outras pessoas que foram importantes na minha
trajetória que se compõe de muitos nomes. Não fique triste se seu nome não está
aqui mas numa arte em que um estimula o outro todes são fundamentais. Cito aqui
apenas algumas pessoas que agiram como uma espécie de dínamo energético, um
combustível, que animou em mim a vocação de fazer teatro. Depois delas vieram
outras que também trouxeram em seus sorrisos, em suas posturas e no vigor da
juventude o estímulo que me manteve sempre indo em frente na verdadeira missão
que o teatro muitas vezes se torna na vida da gente.
Comentários
Postar um comentário