Finalmente, em 1995/96 eu me senti apto e maduro pra encarar a direção. Até
então eu havia me exercitado bastante dirigindo peças infantis e uma que outra
experiência como diretor de teatro para adultos. Em 1993 dirigi “A Dama da
Noite”, um conto de Caio Fernando Abreu, com Walkíria Ghres e Rodrigo Freire. A
encenação foi apresentada na Sessão Maldita que acontecia no porão do Teatro
Renascença. Em 1995, na Cia. Stravaganza, dirigi “O Pastelão”, espetáculo de
comédia dell’arte. No elenco eu, Adriane Mottola, Luiz Henrique Palese, Pinduca
Gomes, Liane Venturella e Alexandre Tosetto. No ano seguinte fiz a direção de
“Cagaoro”, solo da atriz e professora Laura Backes sobre um texto de Ítalo
Calvino. Com todo este currículo me senti apto.
Em 1995 comecei a formatar um projeto que eu acalentava há pelo menos uns
dez anos para apresentar no edital de ocupação do Teatro de Arena. O prêmio era
ocupar o Teatro por seis meses e mais a fabulosa quantia de R$ 10.000,00 pra
você colocar seu espetáculo no palco do Arena. Isso porque, na época, ele era
considerado um teatro de difícil acesso para o público e por isso mesmo pouco
frequentado. Era uma maneira de incentivar as produções no Arena. Este edital
durou alguns anos, depois parou, depois voltou e agora não tem mais mesmo.
Morreu.
Encenar Plínio Marcos foi motivado pela ideia brilhante que o Grupo Tapa
executava em São Paulo com o seu “Panorama do Teatro Brasileiro”, conforme já
contei aqui num texto-memória anterior. Mas, principalmente, pelo fato de que a primeira
peça inteira que eu fiz foi “Quando as Máquinas Param”, do
Plínio Marcos. Já tinha assistido peças dele no próprio Teatro de Arena.
Montagens dirigidas pelo Jairo de Andrade. Quando eu era estudante do DAD já
tinha ido ouvir palestras do Plínio Marcos no Teatro de Arena. Em plena
ditadura a gente se refugiava no Arena pra escutar o Plínio vociferar contra o
regime militar. Eu já tinha lido todas as peças do Plínio e achava que ele era
um dramaturgo que me representava. Maldito, perseguido pela ditadura. Resistente.
Nada mais
justo que o meu projeto fosse uma peça do Plínio. Só que eu tive um ataque de
megalomania galopante e inscrevi a proposta de encenar uma
trilogia Plínio Marcos. Ao invés de ganhar dez mil para fazer uma peça eu
ganharia dez mil pra fazer três peças. Um verdadeiro cavalo de tróia ao
contrário. Um baita negócio pra eles (os artistas são sempre um baita negócio
pra eles, os burocratas da cultura). A ligação entre o Teatro de Arena e o
Plínio Marcos é evidente. Tudo que os dois representam pra a
história do Teatro brasileiro também é evidente. Fazia mais de 30 anos que
ninguém montava Plínio Marcos. Então, meu projeto foi aprovado pelas instâncias
superiores.
Inicialmente, eu planejava encenar “Navalha na Carne”, “Dois Perdidos
numa Noite Suja” e “Quando as Máquinas Param”. As três peças
teriam o mesmo elenco (coisa que acabou não acontecendo) e o mesmo cenário (o que acabou acontecendo). Na hora de escrever o projeto achei que o “Quando as Máquinas...” era uma peça datada. Hoje percebo que estava enganado e
que o texto ainda teria muito a dizer em 96/97. E
com o desemprego descontrolado que
estamos vivendo agora, a peça ainda continua atual. No lugar de “Quando as Máquinas Param” entrou a violentíssima
“Abajur Lilás”. O submundo invade o teatro com a caneta certeira
do Plínio Marcos.
As três peças
foram mesmo ambientadas num único cenário. Um ambiente
asfixiante projetado pelo genial cenógrafo Nelson Magalhães, o Nelsinho. Meu amigo querido que entra na classe de
ser um daqueles “irmãos que não tive”. Começamos juntos nossa vida no teatro.
Somos dois tímidos, retraídos, mais ele do que eu. Não nos vemos com com
frequencia mas nos mantemos ligados pelo fio invisível traçado em nossos
percursos paralelos que se desenrolam até hoje. Atuamos juntos na peça infantil
“A Comunidade do Arco-Íris”, texto de Caio Fernando Abreu com direção da Suzana
Saldanha. 1979. Última peça do importante Grupo Província.
O Nelsinho é um apaixonado cultuador e criador de “móbiles”. Esta paixão se
revelava, por exemplo, no cenário da primeira montagem de minha peça infantil
“Risco, Arisco & Corisco” (1988). Ele criou um cenário composto por três
grandes painéis horizontais interligados e dotados de movimento. Cada mudança
na posição dos painéis sugeria que os personagens estavam conhecendo um novo
ambiente. O mobilidade do cenário encantava as crianças e oferecia a elas o
estímulo para que elas acompanhassem a aventura vivida pelos três amigos da
história da peça.
Em “Arena conta Plínio Marcos” eu e o Nelsinho passamos algumas noites tomando uma cerveja e discutindo cada detalhe do cenário. A melhor parte é que naquele projeto a gente tinha algum
dinheiro para investir num cenário. Então, mais do um cenário a gente fez uma
instalação. O cenário criado pelo Nelsinho transformava a sala de espetáculo do
Teatro de Arena numa favela de compensado naval. Um tapume cor de rosa que colocava o público
na condição de voyeur do barraco do vizinho e obrigava a plateia a espiar a
ação através de frestas. O cenário era o mesmo para as três peças
com pequenas adaptações de acordo com as necessidades de cada uma das peças.
Quase na estreia da primeira peça, num ensaio, percebemos que as frestas impossibilitavam que a gente enxergasse o corpo do ator completo. Elas dificultavam a visão.
Cortavam a visão do público. Um
problema e tanto. O Nelsinho quebrou a cabeça e veio com a solução: colocar espelhos em toda a área inferior das paredes do cenário. Isso criava um efeito cinematográfico para a peça que a gente nem havia
imaginado. O público olhava pela fresta e completava o corpo do ator pela
imagem do espelho. O efeito era fantástico.
O Nelsinho criou um ambiente livremente inspirado em Bispo do Rosário. As paredes foram
decoradas com velas, talheres e cabeças de bonecas misturados com muitos pés, mãos,
pênis, braços e pernas de cera, os
chamados ex votos. O cenário era
urbano e transpirava opressão, a
mesma opressão contida no textos de Plínio Marcos que
traz para a cena justamente o universo dos oprimidos. Favela, miséria, fé, pobreza e ignorância e tantos outros adjetivos que
identificam o Brasil estavam escancarados nos textos, no cenário e
nas encenações.
Como já disse, o projeto foi aprovado no
Edital do Arena. Além disso recebeu financiamento do Fumproarte que comprou ingressos antecipados que foram distribuídos pela
Descentralização da Cultura. E ainda recebeu uma grana da
Caixa Econômica Federal que tinha
aberto um edital para peças de teatro brasileiro. Somando a grana dos três editais deu pra gente fazer as três peças com
dignidade. A gente sorria e brincava com uma frase dita por alguns personagens de Nelson Rodrigues: “Dinheiro
há! Dinheiro há!”
Não era uma fortuna, mas deu para fazer uma produção bacana. Não era dinheiro folgado, era tudo
apertadinho, mas pagava cachê de ensaio pra toda equipe. Deu pra pagar a
produção e permitiu investir num cenário conceitual e marcante. Pena que tudo isso é coisa do passado. Os editais foram
sumindo e o teatro cada vez mais maltratado.
Era minha primeira grande produção no teatro adulto. Depois de muitos anos,
voltava a assinar uma direção. Uma, não. Três. Nas próximas memórias vou
escrever sobre as peças do projeto Arena Conta Plínio. Hoje fico aqui com a
recordação da originalidade do cenário e da genialidade do cenógrafo Nelson
Magalhães, o Nelsinho, simplesmente o melhor cenógrafo de Porto Alegre. E meu
amigo.
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