MEMÓRIA 15 - BOCA DE OURO


Pra encerrar 1998 com chave de ouro no dia 6 de novembro estreou a minha montagem de “Boca de Ouro”. Segunda peça do projeto 2 X Nelson a se apresentar no novo espaço cultural da Benjamin Constant. Fui verificar a data de estreia e do começo dos ensaios e, quase caí duro: inacreditavelmente, a peça foi feita em seis semanas. Inacreditável porque, modéstia à parte, o espetáculo ficou muito bom. Foi elogiado pela crítica, prestigiado pelo público e aprovado pela exigente classe teatral. Foi indicado em oito categorias do Troféu Açorianos, o nosso Oscar tão vergonhosamente tratado durante os anos fortunati/marchezan. Ganhou melhor espetáculo, o Serginho ganhou melhor ator e a Liane Venturella ganhou melhor produção.

 Existem ocasiões em que o teatro, a entidade “teatro”, se faz presente e tudo conspira pra dar certo. É como se a gente fosse mero coadjuvante no processo de construir um espetáculo. Encenar uma peça difícil como “Boca de Ouro” em seis semanas foi realmente uma árdua tarefa que nos impomos. Na minha opinião, o resultado foi muito superior as nossas melhores expectativas. Durante a primeira temporada fomos corrigindo muita coisa, entradas e saídas, algumas melhorias na movimentação  e no ritmo da peça que foi se ajustando, se encontrando de acordo com a repetição. Bem como é o teatro mesmo: um organismo vivo que pode e deve se aperfeiçoar durante toda a sua existência. Mais ou menos o que a gente faz. Ou tem gente que devia fazer.

 “Boca de Ouro” aconteceu num momento especialíssimo da minha vida. Eu me sentia pleno de energia e criatividade. Um ano de muito trabalho e riquíssimo em experiências artísticas e de vida. Eu récem havia encenado o O Barão nas Árvores da Redenção, e já havia sido contratado para dirigir um espetáculo gigantesco chamado Fronteiras de Fogo. Uma peça temática sobre a vida do General Osório que reuniu mais de cem participantes no elenco. Uma experiência ímpar de trabalhar com profissionais de São Paulo, ser bem pago e estar à frente de uma equipe inteira dirigindo uma superprodução. Eu ia e voltava de Osório todos os dias durante mais de dois meses.

 Estava trabalhando como ator em dois curtas: O Oitavo Selo, primeiro trabalho do queridíssimo e maravilhoso Tomás Créus, e O Velho do Saco, onde fui dirigido por cinéfilo Milton do Prado e Amabile Rocha que faz jus ao seu nome. Nos dois filmes tive a enorme sorte de trabalhar com diretores que trataram com enorme gentileza a minha falta de experiência diante da camêra. Estava atuando em "O Beijo no Asfalto", pelo qual fui indiciado ao prêmio Açorianos de melhor ator coadjuvante. Estava atuando em "Intestino Grosso" curta de Augusto Canani, que adorei fazer. Experiência maravilhosa a qual me entreguei totalmente (pelo menos é o que acho) na pele de um personagem que correspondesse ao que queria o diretor. Acho que era o primeiro curta do Canani (talvez fosse o segundo), mas ele sabia exatamente o que queria.

E, além e acima de tudo isso, eu estava ensaiando e estreando uma peça no “meu” teatro. Era algo completamente novo e inimaginável: a experiência de “ter” um espaço pra criar. Todo tempo que sobrava eu ficava no Depósito de Teatro que ainda não tinha este nome e era só um depósito. Eu ficava lá trabalhando no espaço ou dirigindo o “meu” Boca. Momento muito feliz em que eu fazia tudo isso com total entrega e prazer. Não poderia ser diferente: eu tinha algum dinheiro pra produzir a peça e tinha uma equipe de gente maravilhosa comigo. Pegando junto de verdade. Fazer o “Boca de Ouro” foi uma dádiva. Trabalhei com atrizes e atores dedicadíssimos e que também pareciam estar vivendo uma fase especial em suas próprias vidas.

 Como protagonista eu tinha no elenco o ator Sérgio Etchichury, simplesmente a cereja do bolo que qualquer diretor quer ter. O Serginho é um daqueles atores de raro brilho além de ser um ser humano especial. Ele é impecável na suas composições, na doação e entrega ao papel. Era fantástico ver ele na Terreira da Tribo como seria depois no MacBeth da Patrícia Fagundes. Ele construiu um Boca de Ouro cínico, cruel e completamente sedutor nas três versões da história. Os homens se identificavam com sua objetividade com as mulheres. O Boca do Serginho era o cafajeste idealizado por todos os homens. As mulheres deliravam. As senhoras apaixonavam-se imediatamente e às vezes deixavam bilhetes para o Serginho com seus números de telefone. O Serginho criou o anti-herói que o Boca era. Maravilhoso. Acertadamente o Melhor Ator do ano.

 Outra sorte de diretor era ter no elenco minha dupla de atacantes. Era só golaço. Pelé e Garrincha. Messi e Maradona. Paulo Vicente e Sandra Possani. Era covardia. O Paulo é meu ator fetiche, adoro trabalhar com o Paulo, acho que ele é simplesmente o máximo. Um ator inteligente, rápido, que coloca muita verdade na suas interpretações. E uma rica e fina duma criatura pra se trabalhar. A Sandra é a mais maravilhosa atriz com quem tive oportunidade de trabalhar. Raro brilho, atriz que tem a centelha, tem estofo. Eles eram o casal Agenor e Dona Guigui. Paulo Vicente havia trabalhado comigo em Abajur Lilás, e a Sandra, vinha de O Barão nas Árvores da Redenção. Ele tinha detonado na pele do viado Giro, e a Sandra, que conquistou o público no papel da enlouquecida Batista, irmã do Barão.

 No meio de campo eu tinha outra dupla poderosa: Maria Falkembach e Álvaro Rosacosta. O casal Celeste e Leleco. Álvaro, como sempre numa atuação impecável, mas daquela vez ele ainda alcançava notas mais elevadas e atingia o brilhantismo na metódica construção que fez para Leleco. Maria, entregou-se inteiramente na construção de sua personagem e alcançou um resultado primoroso de atuação nas suas três Celestes, pois a história é recontada três vezes, e a cada vez, Celeste e Leleco tem que mostrar um aspecto pessoal diferente para o espectador.

 Pra fazer o trio representantes do jornalismo eu tinha Vinicius Petry, Tuta Camargo e Rodrigo Ruiz. O Vini fazia o assutado editor, era um dos capangas do Boca e ainda era um dos músicos da gafieira. O Tuta fazia um Caveirinha cheio de malandragem e astúcia que vai desvendando as histórias da Guigui. O Rodrigo era o fotógrafo do jornal acompanhando o repórter. E pra fazer o trio das gostosas socialaites cariocas estavam comigo as atrizes Lucinha Bendati, Vika Schabbach e a maravilhosa Lisiane Medeiros que simplesmente a-rra-sa-va fazendo a ricaça pirada Maria Luiza. Eu já havia trabalhado com a Lisiane em outras ocasiões e a considero uma excelente atriz e uma colega exemplar.

  não digo que foi o melhor papel que todos representaram em toda suas carreiras porque isso seria desprezar a evolução de cada um destes artistas, mas sei que cada um deles, viveu intensamente o projeto e doou-se com amor, prazer e dedicação. Trabalharam em seus personagens, mas também nos cenário, nos figurinos, na produção. Todos se jogaram de corpo e alma na montagem. Só pra dar um exemplo que me ocorre agora foi o Vini quem compôs o samba enredo para o final da peça, que, modéstia à parte, era simplesmente maravilhoso. Surpreendente. Quando entrava em cena a escola de samba que estava ensaiando durante todo o decorrer do espetáculo, traduzindo a história da peça num samba enredo de uma hipotética escola da samba carioca, o público delirava de prazer. Dava pra ver nos rostos das pessoas a surpresa causada. O inesperado.

 Aliás, o começo e o final da peça eram surpreendentes. Começava com a cerimônia de fechamento do corpo do Boca num terreiro de umbanda pelo pai de santo interpretado pelo Paulo Vicente. Uma cena fortíssima que já estava acontecendo quando o público entrava na sala. Tambores, cheiro de velas e incenso, dança orgiástica, ponto de umbanda, tudo criava um universo diferente, atraente. A peça terminava com um inimaginável desfile da Escola de Samba Impradores da Floresta que entrava embalada por um baita samba-enredo que era executado pela Banda Urro composta por César Figueiredo, Daniel Leão, Felipe de Souza e pelo próprio compositor Vinicius Petry.

 Sou Imperadores da Floresta, branco e doirado

Meu sonho num dia de festa é ser Midas em Eldorado

Boca de Ouro, deus asteca e indigente

Boca de Ouro, fez império e matou gente

É um mito entre o bem e o mal

E hoje eu canto a sua história triunfal

Foi na pia da Imperadores da Floresta, que surgiu o filho da Virgem de Ouro

Mito, herói, bandido, Boca de Ouro.


 E o Nelson Rodrigues, com certeza, aplaudindo lá da sua tumba. 

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