MEMÓRIA 14 - O DEPÓSITO DE TEATRO DA BENJAMIN
Antes de entrar no assunto, um pequeno preâmbulo. Ainda não escrevi sobre a trilogia Plínio Marcos encenada no Teatro de Arena. Logo terei que abordar este assunto pois é aí que começa toda a história do Depósito de Teatro. As três peças reunidas sob o nome de Arena Conta Plínio Marcos faziam parte de uma proposta vencendora de três editais denominada Projeto Teatro Brasileiro.
Vou começar este texto-memória contando como surgiu a ideia deste projeto: alguns anos antes eu estava em temporada em São Paulo com a peça Decameron, uma genial adaptação da Adriane Mottola e do Luiz Henrique Palese, dirigida por este último e produzida pela Cia. Teatro di Stravaganza. Aproveitando um dia de folga fomos todos ao Teatro da Aliança Francesa assistir uma montagem do Grupo Tapa dirigido pelo Eduardo Tolentino.
O TAPA estava desenvolvendo um projeto chamado Panorama do Teatro Brasileiro que consistia de encenações de uma peça de Martins Penna, Nelson Rodrigues (O Vestido de Noiva) e mais um autor nacional que não recordo o nome agora, mas que a Adriane Mottola com certeza vai lembrar. O projeto deles alcançou um fabuloso sucesso. Era patrocinado pela Aliança Francesa e também pela Secretaria de Educação de São Paulo que comprava ingressos para que o público escolar tivesse oportunidade de entrar em contato com grandes autores do teatro brasileiro.
Achei que a ideia era fantástica. Como não pensei nisto antes? Com certeza era uma ideia que tinha que ser aproveitada em Porto Alegre. Principalmente porque os maiores dramaturgos brasileiros não eram encenados na cidade há mais de trinta anos. Pensei que eu poderia fazer algo semelhante em Porto Alegre e batizei de Projeto Teatro Brasileiro. Descobri a pólvora. O projeto foi aprovado nas três instâncias da cultura: Fumproarte, Ieacen e Funarte. É claro que a Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul teria o maior interesse de apoiar este projeto.
(SQN. Lamentavelmente a SEC/RS, ao contrário do que se podia esperar, não deu a menor importância para o projeto e os únicos alunos que levamos ao teatro vieram encaminhados pela Coordenação de Descentralização da Cultura do município. Esta é uma mentalidade, ou melhor, uma falta mentalidade mais aberta e voltada para a ampliação da Cultura e preservação do Teatro. O que temos é uma mentalidade embrutecida e emburrecida. O projeto era excelente pra Sâo Paulo mas não era bom o suficiente pra despertar o interesse em Porto Alegre. Porto Alegre nunca me susrpreende.)
Mesmo assim o projeto teve um relativo sucesso. Minha grande parceira na execução das peças do Plínio foi a Patrícia Fagundes, atualmente diretora da Cia. Rústica e professora do DAD/UFRGS. Depois do balde de água fria que eu levei com o descaso da Secretaria de Educação, foi por insistência da Patrícia que a gente deu mais uma chance ao Projeto Teatro Brasileiro. Ela me convenceu que a gente devia insistir porque a ideia era boa. Então, apresentamos ao falecido FUMPROARTE a proposta da segunda etapa: Projeto Teatro Brasileiro - 2 X NELSON, que pretendia encenar O Beijo no Asfalto e Boca de Ouro num espaço alternativo que seria alugado por seis meses com verba financiada pelo patrocinador.
Numa das muitas reuniões que fizemos para formatar e redigir o projeto surgiu a ideia de encenar as peças num lugar diferente, que não fosse em um palco italiano como seria convencional imaginar. Com “O Beijo no Asfalto” e “Boca de Ouro”, duas peças do mito Nelson Rodrigues, tanto eu, quanto a Patrícia, queríamos experimentar, pesquisar sobre novas possibilidades de relação entre o ator e o espectador num espaço diferente do palco italiano. Nosso interesse era pesquisar sobre a relação espaço/espetáculo/público. Esta era a ideia central do projeto 2 X Nelson. O fato é que o Fumproarte aprovou o Projeto reconhecendo nele originalidade e experimentação. Aleluia.
Com o projeto aprovado começaram os ensaios d’“O Beijo” e, no resto do tempo, eu e a Patrícia percorríamos a cidade procurando um espaço para alugar por seis meses. Um imóvel que pudesse ser transformado no “nosso” teatro. Cada possibilidade que a gente encontrava era comunicada e conferida por um colegiado formado pelas atrizes Liane Venturella, Sandra Possani e Maria Falkembach e pelos atores Sérgio Etchichury, Kike Barbosa e, uma que outra vez, pelo Álvaro Rosacosta.
Vimos muitas salas, depósitos, porões,
lojas e prédios afins. Procurávamos algo localizado numa zona mais central. Por
isso, excluímos de cara os depósitos da zona norte e centramos o foco nos
espaços a disposição em bairros próximos ao centro da cidade. Foi uma longa e
penosa procura. Encontramos algumas possibilidades
bastante boas e interessantes. Pelo menos em três ocasiões fomos surprendidos
por proprietários que se recusavam a alugar seus imóveis assim que percebiam
que era para transformá-los em um teatro e que nós éramos “de teatro”.
#Teatreirofobia.
A decisão final foi entre um prédio enorme, cheio de colunas, na Barros Cassal - onde atulmente funciona a CUT - e um depósito praticamente novo no primeiro andar, fundos, na Avenida Benjamin Constant. Acabamos nos decidindo por alugar este segundo. Quer dizer, dissemos para a mãe da Patrícia e para a tia da Maria, respectivamente a locadora Carmem Sílvia Fagundes e a avalista Maria da Graça Falkembach, que elas deviam alugar o depósito da Benjamin Constant, 1677.
Assim começou a aventura de ser o "dono" do seu próprio espaço de trabalho. A Patrícia já tinha programado que em maio do ano seguinte iria para a Inglaterra fazer o seu mestrado. Pra ela, então, alugar aquele espaço servia ao objetivo exclusivo e imediato de encenar as duas peças de Nelson Rodrigues num espaço inusitado. Mas, pra mim, ganhou um sentido além. Comecei a achar que a partir do seis meses de aluguel pagos pelo Fumproarte poderíamos criar mecanismos para garantir a manutenção de um espaço com uma permanência mais longa.
Eram muitas coisas que alimentavam o sonho da casa própria. Pra começar, ter um espaço abria várias possibilidades e "facilidades". Eu não precisaria mais começar do zero a cada vez que fosse produzir um espetáculo, pois poderia formar um acervo de cenário e de figurinos. Que maravilha, eu não teria mais que arranjar uma sala pra ensaiar, eu poderia ensaiar com iluminação, cenário, figurino, etc; eu poderia explorar e investigar questões relacionadas ao espaço; poderia ensaiar pelo tempo que fosse necessário. O grupo de teatro que estava se criando entre nós já nasceria com esta nova possibilidade: "ter" um espaço. Não é à toa que todos os grandes nomes do teatro russo, europeu, americano e brasileiro estão vinculados a um espaço onde desenvolveram suas respectivas pesquisas de encenação e linguagens diversas.
Assim que foi alugado começamos a pensar em um nome bem bacana para o espaço. A Patrícia proibiu que fosse um nome em inglês. Não me lembro quais foram as sugestões que apareceram mas nenhuma servia. Enquanto a gente procura um nome as reuniões, ensaios, encontros, todos os compromissos eram marcados “lá no depósito”. Chegou perto da data de estreia da peça, aquele momento de mandar o material gráfico pra impressão, e ainda não tinha o nome do local. Aí, meio na pressão, todos concordaram em batizar como Depósito de Teatro – Espaço de Arte e Cultura. Até uma placa foi feita e colocada na fachada. Mas este nome nunca pegou. O que pegou mesmo foi Depósito da Benjamin.
Da inauguração em 1998 ao fechamento em 2006 foram oito anos mantendo um espaço teatral independente aberto ao público. Vocês, meus amigues aqui do Facebbok com certeza tem noção da importância, do significado de tal feito. Mas, será que pareceristas de editais culturais percebem a dimensão social e histórica envolvida nisso?
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