MEMÓRIA 13 - O BEIJO NO ASFALTO

 


Laura Germano, que é uma amiga minha de longa data, desde os tempos da Coolmeia, fez um comentário num texto-memória dizendo que assistiu lá no Depósito de Teatro o espetáculo “O Beijo no Asfalto”, texto de Nelson Rodrigues, encenado pela diretora Patrícia Fagundes. Lembrei que foi com a montagem da Patrícia que a gente inaugurou um novo espaço de teatro em Porto Alegre. Achei que este seria um bom gancho para continuar escrevendo sobre minha trajetória.

 Como escrevi na “memória” anterior, o meu momento astrológico de janeiro de 1998 até o final de 1999 foi excepcionalmente pródigo em acontecimentos especiais. Um período propício a grandes novidades e realizações. Em abril estreou “O Barão nas Árvores da Redenção”. Dirigi uma peça chamada Fronteiras de Fogo cujo elenco era formado por cinquenta atores e atrizes e 50 cavaleiros que se enfrentavam numa batalha sangrenta da Guerra do Paraguai. Atuei em três filmes inaugurando minha brilhante (ironia) carreira cinematográfica. Inaugurei um novo espaço de teatro em Porto Alegre. Estreei como ator em “O Beijo no Asfalto” e como diretor estreei “Boca de Ouro”.

 Todos estes assuntos teriam potencial para que eu escrevesse um grande texto-memória. Mas, conforme aprendi no meu curso de Mestrado em Artes Cênicas é preciso cercar o tema. Então, hoje vou falar só da peça “O Beijo no Asfalto” que fazia parte da segunda etapa do Projeto Teatro Brasileiro chamado 2 X Nelson. “O Beijo”, juntamente com “Boca de Ouro”, ambas do dramaturgo Nelson Rodrigues, receberam financiamento do saudoso FUMPROARTE (vou até escrever com letra maiúscula), com verba para encenar as peças num espaço alternativo alugado com dinheiro do projeto.

 Nossos ensaios aconteciam na Cia. de Arte. Não tivemos muitos meses de ensaio. Talvez menos de tres meses. A Patrícia tem uma grande habilidade em dotar os ensaios de um saudável clima de trabalho e coleguismo. Era um elenco grande composto de artirtas que se conheciam e que estavam embarcando juntos naquela aventura de encenar um texto polêmico num espaço alternativo. Este era o desafio. Somente o último mês de ensaio foi realizado no depósito recem alugado na Benjamin.

 O trabalho duplicou. Tínhamos que terminar a peça e era urgente que o espaço fosse transformado num teatro. Praticamente todos se envolveram nas inúmeras tarefas tanto da peça, quanto do espaço. E eram muitas, e o tempo era curto. Lembro que eu passava o dia inteiro no depósito. Muitas vezes saía de lá já de madrugada. Os dias passavam rápido. Semanas eram devoradas no dia-a-dia do trabalho.

 Nas vésperas da estreia viramos a noite finalizando o cenário. Pintamos todas as paredes de vermelho. Colamos no chão grandes folhas de out-door e as pintamos de vermelho. Desta maneira ficou definida a área de atuação cênica. Costuramos e colocamos cortinas. Montamos grandes arquibancadas cedidas pela antiga Epatur, Empresa de Turismo de Porto Alegre. O  cenário foi criado pela própria Patrícia Fagundes, que sabia muito bem o queria. Ela conseguiu centenas de fardos de jornal com a Zero Hora e alguns andaimes com a Rohr. Nós mesmos montamos os andaimes e distribuimos os fardos de jornais pelo espaço de acordo com as instruções da diretora.

 Recordo que me senti desconfortável no papel de Aprígio. Foi uma personagem muito difícil de compor. Representar alguém que tem como sua última fala “meu ódio é amor” não é uma coisa fácil pra qualquer ator construir. Foi um trabalho árduo, construído com a coração e a mente em todos os seus detalhes. Era particularmente difícil dotar de loucura e alma àquele pai de família, com todo peso que isso tem quando se trata de Nelson Rodrigues. Além disso, Aprígio, no final da peça assume a sua homosexualidade e torna explícito para a plateia seu amor pelo genro. Talvez, quando Nelson escreveu a peça, lá pelos anos 50, isso fosse uma coisa dramática e surpreendente. Mas, esta mesma revelação nos anos 90 era, não só previsível, como apenas risível. Então era isso que a plateia fazia: ria e se divertia no final dramático da peça.

 A peça fez um grande sucesso. Foi uma estreia concorridíssima, tanto pelo espetáculo, quanto pelo novidade do espaço da Benjamin. Muito público em todas as sessões. Teve excelentes críticas, a receptividade por parte do público foi ótima. Até os colegas falavam bem. Nem todos é claro, pois tem aqueles que falam mal de tudo. São os reponsáveis pela manutenção da lenda dos caranguejos. Mas esta já é outra história. Com toda certeza, O Beijo no Asfalto, da Patrícia marcou de forma grandiosa a inauguração do "nosso" teatro e a temporada teatral da cidade.

 Para o elenco da peça foram convidados atrizes e atores que haviam participado das montagens da trilogia Arena Conta Plínio Marcos e de O Barão nas Árvores da Redenção, nossas produções anteriores. O excelente ator Kike Barbosa era o protagonista, Arandir. A família central da peça era composta por mim, como o patriarca enrustido Aprígio; a maravilhosa Sandra Possani como Selminha, filha de Aprígio casada com Arandir; e a grande atriz Vanise Carneiro como Dália, filha caçula de Aprígio que se apaixona pelo marido da irmã ao longo da trama. Todos amavam Arandir.

 Outro núcleo de personagens era formado pelo ator Sérgio Etchichury mais uma vez impecável como Amado Batista, cruel e cínico jornalista que vilipendia a vida de Arandir para vender mais jornais; Álvaro Rosacosta no papel do escamoso e corrupto delegado Cunha; e Tuta Camargo como seu melífluo assistente Aruba.. Além destes, a peça tinha a presença da fantástica atriz Liane Venturella, que fazia uma vizinha da família que destilava seu veneno suburbano no protagonista. Todos odiavam o Arandir

 O Serginho, como é conhecido o ator Sérgio Etchichury no meio teatral, sem dúvida nenhuma está entre os três melhores atores que eu já vi em cena e com quem eu já trabalhei. No “Beijo” ele fazia uma cena muito bonita que acontecia sobre um andaime de dois andares que girava com uma velocidade considerável em cena. Em uma apresentação o Serginho desiquilibrou-se e caiu lá de cima estatelando-se embaixo de uma arquibancada de ferro e madeira. Susto geral. Momento terrível de apreensão de todo o elenco. A peça parou. De quem estava em cena e quem estava fora de cena. O público em choque. Intermináveis segundos se passaram até que o Serginho fosse se recuperando e voltasse à cena dando continuidade a peça. O suspiro de alívio foi geral.

 Outra história. Comprovando a má fama da bur(r)ocracia o FUMPROARTE (que funcionava naquela época) se comportou de maneira totalmente irracional. No projeto original constava que a música seria ao vivo. Porém, no decorrer dos ensaios, a Patrícia foi construindo uma trilha sonora para o espetáculo baseada em Nelson Gonçalves e outros hits do gênero. Ela então foi até o Fumproarte e solicitou uma alteração no projeto, argumentando que a concepção havia mudado desde o momento em que o projeto foi escrito na teoria (via de regra pelo menos um semestre antes, mas quase sempre um ano), e o presente momento de desenvolvimento prático do trabalho. O dinheiro equivalente seria realocado para pagamento de outros profissionais. A resposta foi negativa. Tinha que ter música ao vivo. O resultado disso foi a tímida participação de três músicos que só foram verdadeiramente aproveitados no “Boca de Ouro”.

 Uma última história: no Porto Alegre em Cena daquele ano se apresentaram duas versões de “O Beijo no Asfalto”. A encenação da Patrícia e a montagem de um grupo de Minas Gerais que, curiosamente, fez a peça utilizando o estilo Clow, ou seja, todo elenco usava o tradicional narizinho vermelho que tanto caracteriza este gênero.

 Uma última última história: meu personagem usava bigode. Um certo dia fazendo a barba atorei o bigode com o aparelho de barba. Não encontrei outra solução a não ser raspar todo bigode. Se eu tirasse um pedaço do outro lado aí ficar igual ao Hitler. Cheguei no teatro sem bigode e quase apanhei da Patrícia.

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