Não esquece mesmo. Menos ainda quando o primeiro são três. Sim, isso mesmo.
O cinema não acontecia na minha vida e quando aconteceu veio em dose tripla. Já
contei que em 1987 quando ganhei meu primeiro açorianos de atuação em “O
Ferreiro e a Morte” eu tinha muita vontade de trabalhar no cinema. Já tinha
feito televisão durante os anos do Remendão. Mesmo estando dentro do boneco foi
possível aprender um pouco sobre a linguagem da TV. Mas o cinema era uma
incógnita pra mim.
Veio a acontecer somente em 1998/99, ano astrológico no qual aconteceu
muita coisa na minha vida artística. Por intermédio do diretor Dennison Ramalho
recebi o convite para atuar em um curta-metragem. Na época o Dennison era o
diretor de arte do “intestino Grosso”, curta metragem com roteiro e direção de
Augusto Canani que estava iniciando as filmagens.
Lembro que me pegavam no final da sessão de “Beijo no Asfalto” no Depósito
de Teatro da Benjamin Constant e a gente ia para o set que ficava no Hospital
de Clínicas. Que momento mágico estar participando de um filme. Toda
movimentação em torno da cena. Estar no meio de toda aquela equipe e
parafernália técnica me fascinou. Até hoje me fascina. Se outrora havia sido
mordido pelo vírus do teatro, foi no “Intestino” que fui contaminado pelo do
cinema. Fazia o clássico morador de rua bêbado e mendigo. Pra dar mais
realismo, eu tomava uma dose de conhaque no final da peça e uma dose de cachaça
no começo da filmagem.
Na equipe do “Intestino Grosso” tinha muita gente boa começando sua
carreira. O próprio Dennison Ramalho, atualmente radicado em São Paulo, cujo
mais recente filme é “Morto Não Fala” (no qual por acaso (?) estamos eu e o
Nelson Diniz de novo). O diretor do “intestino” Augusto Canani, premiado em Los
Angeles com “Amores Passageiros” uma produção da Prana Filmes. Tinha o
Cristiano Scherer, premiadíssimo técnico de som, atualmente radicado no Rio de
Janeiro. Alessandra Marder, figurinista e uma das produtoras do filme, que hoje
é diretora de marketing da Nike nos Estados Unidos.
Nestes meus três “primeiro” filme tive o prazer de trabalhar ao lado do
brilhante ator Nelson Diniz. Como, nesta época, o Nelson já era um experiente
ator na linguagem cinematográfica, aproveitei pra aprender com ele. Posso dizer
que sempre aprendo muito com o Nelson quando calha da gente estar no mesmo
filme. No “Intestino” tive oportunidade de atuar também com o célebre ator
David Camargo (1933 - 2006), famoso em Porto Alegre pela sua peça “Consciência
Parda” que fez mais de 200 apresentações na cidade. Uma verdadeira lenda do
teatro de Porto Alegre. Vou colocar o link de um vídeo da RBS/TV sobre o David
por ocasião da sua morte. Ele fez uma desastrosa participação numa Bagasexta.
Participar do filme foi fantástico. Viramos noites filmando num andar sub-solo
do Hospital de Clínicas. Um labirinto de corredores por onde os personagens
circulavam. Era muito bom estar ali. Aprender a me relacionar com a câmera de
cinema. Atuar sem atuar. Ser. Me sentia desafiado e curioso. Aprender a me
relacionar com a equipe e saber o meu lugar naquele universo. Aprender o idioma
falado no cinema. Planos e contra-planos, plongée e
contra-plongée, três tabelas e tantos outros termos do cinemês. É admirável
perceber que toda a equipe se coloca 100% disponível para a execução da tarefa
de realizar aquele filme. Todos trabalham com a maior boa vontade.
Na esteira do “Intestino Grosso” este curta-metragem que me dá o maior
orgulho de ter feito, vieram mais dois curtas. Primeiro veio o convite do
diretor Tomás Créus para que eu fizesse a Morte em O Oitavo Selo. O Tomás, com
toda razão, queria que eu fizesse em teste para o filme. Eu tenho pavor de
testes. Tive que me bancar e dizer que eu não gostaria de fazer o teste.
Preferia que ele me chamasse na confiança de que eu faria um bom trabalho. Ele
pagou pra ver. Nós dois estávamos engatinhando no cinema. Nossa parceria deu
certo, tanto que atuei em outros dois filmes do Tomás Créus.
Junto com “O Oitavo Selo” a Casa de Cinema estava produzindo também o
curta-metragem “O Velho do Saco” que seria dirigido por Milton do Prado e
Amabile Rocha. A ordem era racionalizar os recursos produzindo os dois filmes
praticamente ao mesmo tempo com a mesma equipe. Assim, unindo o útil ao
econômico, fui chamado pra atuar também neste filme, no qual eu interpretava o
próprio Velho do Saco. Enquanto o “Oitavo Selo” parodiava inteligentemente “O
Sétimo Selo” de Ingmar Bergmann, “O Velho do Saco” focava na figura folclórica
do personagem que sequestra crianças e ambiantava o filme na colônia alemã.
Nestes dois filmes conheci muita gente do cinema: as
produtoras Luciana Tomasi e Nora Goulart; a importante diretora Ana Luiza
Azevedo; o premiadíssimo diretor de fotografia Alex Sernambi; o mais conhecido
e premiado montador do cinema local Giba Assis Brasil, a figurinista Rô
Cortinhas; o mestre da direção de arte Fiapo Barth. Conheci o técnico de som
Cléber Neutzling com quem eu viria a trabalhar novamente mais adiante.
Reencontrei o célebre maquiador Luiz Carlos Jamonot que eu conhecia da TV.
Os filmes também me possibilitaram conviver outra vez com Nelson Diniz e o
Dennison Ramalho que estavam nos dois filmes e com o Tiago Real que eu já
conhecia do teatro. Tive oportunidade de trabalhar com o tarimbado ator Werner
Schunemann. Fazíamos uma cena tensa de jogo de cartas na qual eu arruinava a
vida dele. Helga, mulher do Werner em “O Velho do Saco” era a Ciça Reckziegel,
conceituada atriz que eu admirava no teatro.
.
Em “O Oitavo Selo” tive a honra de atuar no mesmo filme que outra lenda do
teatro gaúcho Luiz Carlos Magalhães, ator maravilhoso que faz o velhinho do
selo na abertura do filme. Magalhães, ou Maga como era conhecido, assim como
David Camargo fazem parte da história do teatro de Porto Alegre. O filme também
me proporcionou o prazer de contracenar com o Antônio Carlos Falcão, ator-mito
da cidade pelo seu talento e por ser o cover da Maria Bethânia. Falcão é dono
de uma imensa simpatia e de um fantástico senso de camaradagem e coleguismo.
Virei seu fã.
Os dois filmes estrearam em agosto de 1999 no Festival de Gramado. Pela
primeira vez fui a Gramado. Me sentia um Jeca no meio de todo aquele glamour.
“O Oitavo Selo” ganhou Melhor Roteiro e Melhor Filme pelo Juri Popular e seguiu
ganhando prêmios em diversos festivais. “O Velho do Saco” cumpriu a carreira
normal de um curta-metragem. E o”Intestino Grosso” circulou por diversos
festivais. Pra mim foi um intenso aprendizado atuar nos três filmes. Se por um
lado foi um banho de informações novas para processar, por outro foi uma
espécie de imersão no cinema. Foi tão bom que nunca mais deu vontade de parar.
E continua sendo uma coisa que eu gostaria de fazer mais e sempre e mais.
O Oitavo Selo: https://www.youtube.com/watch?v=iYUAi_cD0MI
David Camargo: https://www.youtube.com/watch?v=kZi3_Oe8oGo
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