Em 1986 eu já me virara bem no teatro, afinal fazia 10 anos que eu
trabalhava exclusivamente na área. Já tinha aprendido a nadar e respirar
no meio teatral portoalegrense. Um ano
antes a TV Pampa tirara do ar o programa “Remendão & Cia por falta de
patrocinador. Durante um tempo eu ainda continuei participando de festas com o
Remendão. Ao mesmo tempo, voltei à atividade teatral atuando na peça infantil
“Peter Pan”, adaptação e direção do Camilo de Lélis.
Era o início do plano cruzado do Sarney. Mil cruzeiros viraram um cruzado.
Era também o começo da Cia. Face & Carretos. O grupo havia feito muito
sucesso com “Sabão, o Menino do Joelho Sujo” e estava realizando naquele ano
uma produção infantil mais elaborada para estrear no Teatro Renascença. Foi nesta
peça que comecei a trabalhar com a atriz Adriane Azevedo e seu irmão, o ator e
iluminador Carlos Azevedo, dupla que vem percorrendo ao meu lado por toda minha
trajetória. São nomes que ainda voltarão ao longo destas memórias.
Através do Face & Carretos conheci um monte de gente que estava também
começando e batalhando seu sustento através do teatro. No “Peter Pan” conheci a
atriz Lígia Rigo, excelente como colega e mais ainda como atriz. Marco
Frockowiack um gigante no palco e na cenografia. Elison Couto ator e parceiro
de outras lembranças minhas. O figurinista e ator João de Deus. O mestre de
todos Meme Meneghetti, ator dos bons, músico incrível, cantor mais ainda,
grande amigo e um dos maiores bebedores de cerveja que eu já vi. Pra competir
com o Meme só o Pinduca Gomes ator que eu também conheci no Peter Pan. Conheci
Liz Dias, atriz e bailarina, que viveu um longo tempo em São Paulo e agora
reside em Porto Alegre de novo. E o ator e roteirista João Luís Martinez que
atualmente se dedica mais ao cinema.
Lembro que a peça era muito agradável de fazer e que a gente lotava os
trezentos lugares Teatro Renascença todos os sábados e domingos da temporada.
Era fenomenal. “Peter Pan” foi o grande sucesso teatral daquele ano e o
primeiro da minha vida. As crianças adoravam o Peter Pan que a Adriane Azevedo
fazia. A dupla Peter e Wendy ou Adriane Azevedo e Liz Dias conquistavam o
coração das crianças.
No meio da segunda temporada de “Peter Pan” o grupo começou a se movimentar
em torno de uma nova montagem “O Ferreiro e Morte” que seria dirigido pelo
Camilo de Lélis. O Camilo tinha conhecido a peça no Uruguai e trouxe a ideia de
encenar em Porto Alegre. Eu fquei muito feliz quando fui convidado pra
interpretar o papel de São Pedro. Para
representar o Miséria, que era o protagonista da peça, o Camilo convidou o ator
Hamilton Mossmann. Ator importante já conhecido e reconhecido pelo público de
teatro e pela crítica jornalística da época.
Começaram os ensaios e desde os primeiros encontros por algum motivo ou por
outro o Hamilton tinha que faltar. Ele tinha vínculo ou era dono de uma agência
que trabalhava com publicidade, ramo que estava em fase crescente naquela
época. O Hamilton aparecia em um ensaio e faltava em três. Como o São Pedro
entrava somente no começo e no final da peça pra falar com o Miséria, quando o
Hamilton não vinha, o Camilo me pedia para ler e marcar o personagem em cena.
Lá pelas tantas o Camilo encheu o saco das faltas justificadas do Hamilton e me
disse algo assim: “Roberto: eu te entrego o Miséria mas tu tens que te
comprometer em emagrecer pelo menos 30 quilos até a estreia. Topei na hora. Foi
o gatilho certo para fazer com que eu perdesse 43 quilos em dez meses.
O Miséria era um grande papel. O protagonista da peça. Não sai de cena. Era
o maior presente que eu recebia e o maior desafio que eu enfrentava até então.
O Marco dizia que a cena entre o Miséria e a Morte, no final do espetáculo, era
um duelo de titãs. Nós dois fomos premiados com o Troféu Açorianos daquele ano.
Realmente, quando a peça ganhou ritmo no decorrer de suas apresentações, não só
a nossa cena, mas a peça como um todo caiu no gosto do público. Era um
espetáculo vivo, vibrante, que arrebatava a plateia. “O Ferreiro e a Morte” se
constituiu num grande acerto teatral.
As primeiras temporadas da peça foram completamente lotadas. Com o “Peter
Pan”, o “Ferreiro” e mais uns bicos
(sempre têm os bicos) eu conseguia me manter financeiramente. Além disso, como
eu vendia peças infantils nas escolas, comecei a vender apresentações do “Ferreiro”
para as turmas maiores. Fizemos muitas apresentações para o público escolar
abrindo um novo mercado pro espetáculo.
Com o “Ferreiro” participei do I Encontro de Teatro de Canela quando Canela
pretendia fazer do teatro o que Gramado fez do cinema. Com o “Ferreiro” tive
uma das maiores emoções da minha vida ao ver o Theatro São Pedro completamente
lotado aplaudindo de pé ao final da apresentação irreprensível que fizemos no
III Encontro Renner de Teatro. Com o “Ferreiro” tive a felicidade de me apresentar
no Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro dentro da fiz minha primeira
apresentação no Rio de Janeiro dentro da Mostra de Teatro Verão/88 promovida
pelo Instituto Nacional de Artes Cênicas, o extinto INACEN, que virou um
departamento de teatro dentro da Funarte.
No mesmo ano em que o ousado espetáculo “Ostal” foi premiado como a melhor
peça e Maria Helena Lopes foi considerada a melhor diretora pelo “Império da
Cobiça”, eu ganhei meu primeiro prêmio de melhor ator. Subi aos céus de tanta
felicidade. Fazia onze anos que eu fazia teatro e me dediquei muito para ganhar
este prêmio. De ego inflado e com o peito cheio de esperança julguei que minha
carreira iria deslanchar. Estava vivendo dignamente de teatro com duas peças
que faziam sucesso. O prêmio vinha para coroar o momento e dar o empurrão que
faltava para que eu desse certo como ator. Era a garantia de atingir o
profissionalismo.
No dia 29 maio de 1988, dois dias depois do meu 34º aniversário, saiu em
toda imprensa No dia tal de tal saiu em
toda imprensa escrita, falada e televisionada o resultado do Açorianos. Minha
foto estava em todos os jornais que na época eram pelo menos seis. Eu tinha
certeza que surgiriam muitas propostas de trabalho. Era certo que eu seria
requisitado para atuar em peças de outros diretores. E o mais importante: era
certo que os diretores de cinema da Porto Alegre iriam me chamar pra atuar em
seus filmes. Minha maior ambição era o cinema. Eu acreditava que o cinema era a
porta para que eu pudesse construir uma estabilidade financeira. Era com tudo
isso que eu sonhava.
SQÑ. Nada disso aconteceu. Nada aconteceu. Fiquei estarrecido. Levei um
tempo para compreender que eu estava marcado pelo rótulo de ator de teatro de
grupo. Observei mais atentamente e percebi que os diretores de cinema
(generalizando) não vão (ou não iam) ao teatro. Eles não conhecem os atores.
Não sabem quem somos. E aqueles que sabem, que são os diretores de teatro, tem
suas preferências formadas. Enfim, quando vi que nada aconteceria, continuei na
batalha cotidiana que é fazer teatro em Porto Alegre, minha cidade que alguns
teimam em manter provinciana e burra.
Continuei por um tempo na Cia. Face & Carretos como ator e como
produtor. Atuei sob direção do Camilo de Lélis na “Ópera do Invasor” que
estreou em novembro de 1988. Com a “Ópera” eu vivi pela primeira vez a decepção
da falta de público. Teve uma apresentação em que não foi ninguém assistir a
peça. Nenhuma pessoa chegou até a bilheteria. Havia começado o tempo das vacas
magras. Aquele tempo em que alguém tinha que ir até o bilheteiro fazer a
fatídica pergunta: Quantos tem? Depois voltar correndo pra dizer aos colegas
quantos “públicos” têm. Até a “Ópera” isso era inédito para mim. Depois virou
moda.
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