MEMÓRIA 09 - O ESTRANHO SR. PAULO

 


Primeiro eu tinha brigado com o Teatro. Como num romance às vezes isso acontecia: eu brigava com o Teatro, cansava de fazer Teatro, da cansativa rotina de levantar fundos pra fazer teatro, de pagar pra fazer teatro, de andar com o pires na mão pra fazer teatro. Então, nestes momentos eu me retirava do Teatro. Arranjava outro trabalho. Desta vez arranjei um uma casa emprestada e trabalho numa pizzaria na Praia do Rosa.

 

Um belo dia recebi (não sei como) um recado que o Decameron iria se apresentar num festival da cidade do Porto, Portugal. A Adriane Mottola escreveu me perguntando se eu toparia fazer a apresentação ou se eu realmente não fazia mais Teatro. É óbvio que diante da possibilidade de viajar para a Europa eu não hesitei em dizer que sim. É claro que eu topava. Entreguei a casa, me despedi do emprego e voltei para Porto Alegre.

 

Por incrível que pareça fomos para a Cidade do Porto para nos apresentar num festival lusófono com uma peça falada em italiano. Parece até piada de português. Depois de cumprir nossas obrigações com o festival cada um decidiu o que fazer antes de voltar para o Brasil. A Liane Venturella e o Sérgio Etchichury foram pra Londres. O Palese, a Adriane e o Mário foram pra Itália, e eu fiquei em Portugal. Viajei pro norte e pro sul. Tentei arranjar um emprego e não consegui. Acabei retornando totalmente sem dinheiro.

 

Chegando aqui arranjei um trabalho como taxista dirigindo o táxi do irmão de um amigo de um amigo meu. Acordava às cinco da manhã pra antes das seis estar no primeiro ponto esperando o primeiro passageiro. E passava o dia inteiro dirigindo num trânsito caótico ou parado num ponto de táxi conversando com os colegas. Ou melhor, ouvindo os colegas despejarem todos aqueles assuntos e piadas de taxistas que vocês podem imaginar. A pessoa mais culta e mais gentil que eu peguei em meu táxi foi o costureiro Rui que foi o único passageiro a perceber que eu era um motorista diferente. Mais capacitado culturalmente, digamos.

 

Foi durante este período que recebi um convite do diretor Camilo de Lélis pra integrar o elenco da peça “O Estranho Senhor Paulo”, texto do alemão Tankred Dorst. Na época o Camilo já era um diretor premiado e seu projeto de encenação foi aprovado e recebeu auxílio financeiro da Sedac para encenar a peça no Teatro de Arena. Larguei a promissora carreira de motorista de táxi e me atirei no processo de ensaio da peça.

 

Nesta peça tive o prazer imenso de trabalhar com a Renata de Lélis, na época uma jovem atriz que eu conhecia desde criança. Criamos uma notável cumplicidade entre nossos personagens da peça. A amizade do Sr. Paulo com a menina Anita era tocante para o público que se arrepiava quando a menina retirava de dentro de uma lata de biscoitos a ratinha Ieda. Intuitivamente eu e a Renata alcançamos belíssimas notas em nossa contracenação. Lembro que ficamos muito tristes quando o Camilo decidiu cortar uma cena nossa. Nossa atuação não passou em branco: eu e a Renata fomos premiados pelo nosso trabalho com o Troféu Açorianos daquele ano.

 

Neste trabalho reencontrei os atores Elison Couto e Carlos Azevedo, com quem eu já tinha trabalhado. O Carlos era o iluminador e o Elison fazia um sujeito meio nazista chamado Schwarzbeck. Trabalhei pela primeira vez com o conhecido e premiado figurinista Daniel Lion interpretando Helm, um angustiado executivo que quer despejar o Sr. Paulo de sua residência. Com a atriz Lisiane Medeiros que fazia a Srta. Louise, gentil e adorável irmã do protagonista. E com a atriz Alejandra Herzberg (onde andará?) que acompanhava o executivo em sua visita e acabava sendo atraída pela simpatia e pelo discurso insólito de Paulo.

 

Falei na memória anterior que tive algumas escolas de teatro. Pois fazer parte de “O Estranho Sr. Paulo” foi outra grande escola que tive o privilégio de “cursar”. Motivo 1: voltar a trabalhar com o Camilo de Lélis, diretor que sempre admirei e que, como já declarei em algumas ocasiões, foi meu grande professor de direção teatral. Motivo 2: o espetáculo estreou no Teatro de Arena, minha primeira atuação neste tipo de palco. Motivo 3: a pela trajetória vitoriosa cumprida pelo espetáculo. Com o “Sr. Paulo” eu pude experimentar pela segunda vez a sensação concreta de ser um ator profissional.

 

Foram algumas temporadas no Teatro de Arena e outras tantas no Auditório do Instituto Goethe. Mesmo sem fazer parte da programação do Festival PoA Em Cena daquele ano (só entramos no ano seguinte) o Sr. Paulo foi a única peça convidada para o Festival Internacional de Buenos Aires. Ali realizou duas apresentações memoráveis que receberam críticas apaixonadas de especialistas presentes no evento. Glória extrema foi ler na crítica de Isabel Croce que “seu domínio de cena é um dos mais perfeitos que temos visto” se referindo a minha atuação. É ou não é uma glória?

 

Em 1995, quando começamos a ensaiar, o FHC assumiu a presidência. No ano seguinte, quando estreamos, ele já começou a trabalhar pela reeleição. Depois de uma escandalosa compra de votos no congresso a emenda favorável a reeleição foi aprovada e o FHC já começou a campanha para conseguir um novo mandato em 1998.

O esquema possibilitou que jorrasse dinheiro até para a Cultura. A Funarte instituiu um projeto nacional de circulação que beneficiou grupos do Brasil inteiro. Entre estes estava o Face & Carretos e sua mais recente produção: O Estranho Senhor Paulo.

 

O espetáculo pode ser apresentado no Distrito Federal e em todas as capitais do norte e do nordeste brasileiros em duas etapas de circulação. Foi fantástico. Adquiri uma experiência de palco enorme nestas viagens. Imaginem o que significa para o trabalho do ator ter que encarar diferentes públicos, se adaptar a diferentes teatros com diferentes soluções a cada noite? Afora isso, tinha o tratamento digno que a gente recebia. Viagens de avião, transporte local de primeira, alimentação em ótimos restaurantes e hospedagem nos melhores hotéis da cidades pelas quais passamos. E ainda tinha um cachê milionário. Cada apresentação recebia a vultuosa quantia de dois mil reais, moeda nova recém criada. Moeda que deu estabilidade nas finanças e a reeleição pro FHC continuar privatizando tudo.

 

Como pessoa física tive oportunidade de conhecer, navegar e me banhar no Rio Amazonas, ícone da brasilidade desde as aulas de Geografia. Andei de barco pelos igarapés de Belém do Pará e estive no Mercado Ver-o-Peso. Me apresentei no Teatro Amazonas e no Teatro São Luís. Tomei uma cachaça em Fortaleza. Comi baião de dois em Teresina. Estive na linha do Equador e na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. Nos bares de São Luís do Maranhão e no mercado ao ar livre de Macapá. Conheci um Brasil que eu não conhecia exercendo minha profissão. Foi o máximo.

 

Nos aeroportos na hora de embarcar tinha que esconder a Ieda. A camareira de um hotel teve um chilique quando encontrou um rato asqueroso no quarto e queria matar a Ieda. Na penúltima cidade eu fiz a peça numa poltrona porque não tinha mais dinheiro pra pagar o transporte aéreo do cenário e tivemos que deixar a banheira do Sr. Paulo pra trás. Na última cidade eu fia a peça numa cama de hospital porque foi o que a produção conseguiu. O Vitório, que era o bebê do Carlos e da Lisiane, viajou conosco e aprendeu a mergulhar comigo. O Daniel não aguentava mais comer cupuaçu. Um macaquinho se apaixonou pela Alejandra. Lamentavelmente, naquela época a gente não tinha tanta facilidade fotográfica quanto se tem agora. Tantas lembranças que poderiam ter se transformado em fotos.   


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