MEMÓRIA 08 - DECAMERON

 


Sempre que me perguntam digo que tive três grandes escolas de teatro. Na verdade, posso considerar que houveram mais escolas que foram importantes na minha formação. Participar do início do Grupo Ói Nóis foi uma grande escola. Dar aulas na Descentralização foi outra grande escola. A criação do Depósito de Teatro, tanto do grupo quanto do espaço, tem sido uma longa e valiosa escola. Mas, quando falo que foram três, me refiro ao DAD (Departamento de Arte Dramática), o Decameron e O Estranho Sr. Paulo. Hoje vou escrever sobre minha participação no Decameron.

 

Por diversos motivos considero ter sido uma gigantesca sorte ter sido convidado pelo Luiz Henrique Palese e pela Adriane Mottola para integrar o elenco da peça. Aquele momento em que uma conjunção de astros se alinham e você é a pessoa certa no momento certo. Como a Xuxa, por exemplo, guardadas as proporções, é claro. Ter “feito” o Decameron foi marcante na minha trajetória, tanto pelo seu caráter artístico, quanto pelo caráter formador da minha cultura e vivência de uma ética teatral.

 

Eu havia sido convidado pelo Paulo Flores para atuar na montagem do espetáculo Fausto. Cheguei a participar de alguns ensaios e reuniões iniciais. Assisti uma ou duas aulas ministradas pela filósofa Paulina Nólibos. Acho que o grupo estava passando por uma crise naquele momento e os ensaios foram interrompidos. E não me lembro bem como me desliguei da montagem. Lembro que fui procurado pela dupla de diretores da Cia. Teatro di Stravaganza, que me falaram sobre sua ideia maluca de encenar algumas histórias do Decameron de Giovanni Boccaccio e me convidaram para fazer parte do elenco.

 

Até o Decameron, eu nunca havia me imaginado fazendo uma comédia. Mas, aceitei o convite e logo estava ensaiando com a Adriane Mottola, a Angélica Borges, que atualmente é dubladora e mora no Rio de Janeiro, e o ator Marcelo Fagundes. Todos sob direção do Luiz Henrique Palese. O Marcelo ficou na peça somente no primeiro mês e foi substituído pelo próprio Palese. Bem mais adiante, quando a peça começou a viajar, entrou a atriz Liane Venturella substituindo a Angélica. A Liane foi quem mais se apresentou com a peça.

 

Começamos improvisando sobre várias histórias do livro que o Palese e a Adriane haviam escolhido. Tivemos aulas de bufão, de pirofagia e de italiano, já que a peça seria totalmente falada em italiano. Tudo era muito corporal então os ensaios diários eram baseados em exercícios físicos e muita preparação corporal. Logo o Palese, que era um multi-artista, estava enlouquecido com criação e produção de cenários, figurinos e com a iluminação. Então foi convidado o ator Sérgio Etchichury para ser o assistente de direção. Ele fazia a ponte com o Palese e conduzia a gente nos ensaios. Logo eles estavam bem afinados.

 

As cenas eram improvisadas em português mas assim que eram fixadas a gente começa a decorar o texto em italiano arcaico escolhido pelo diretor. Primeiro o cenário deveria ser uma linda praça medieval. Mas, um dia o Palese chegou no ensaio com a ideia de a peça se passaria diante de um carroção de madeira enorme, quase uma réplica das antigas carroças usadas pelos artistas da Commedia dell’Arte. Desenhamos uma planta baixa da carroça no piso e começamos a nos acostumar com a ideia da carroça e a peça foi se construindo.

 

Quando o Palese falou da carroça eu imaginei uma carroção muito grande. Pois era maior ainda. Era uma gigantesca carroça com portas, alçapão, escada, gavetas que se abriam e truques escondidos que eram revelados durante a peça. Passamos algumas noites na oficina da Epatur. Chegamos com a carroça desmontada no Teatro Renascença às 5 horas da manhã do dia da estreia e trabalhamos sem parar na montagem da carroça e todos os demais preparativos para estrear às 21 horas. No ensaio feito às pressas foi cancelada uma manobra que deveríamos fazer com a carroça. Muitas mudanças de última hora tiveram que ser feitas. Tudo ficou pronto muito perto da hora de abrir a porta para o público. O nervosismo era geral.

 

A peça começou. A gente tenso por causa das alterações. O público tenso porque tinha que entender italiano. A tensão acompanhou a gente até o final da apresentação porque teve portas que emperraram, ou não abriam ou não fechavam, coisas que não funcionaram. O público, quando percebeu que não precisava saber italiano para entender a peça, relaxou e riu bastante. O final de semana da estreia foi de afinação geral do espetáculo e ajustes dos inúmeros detalhes do espetáculo. Ao final do primeiro mês de apresentações já dava pra se sentir à vontade e pra perceber que a peça era muito boa de fazer e muito boa pra quem assistia.

 

Além de lidar com as alterações de marcação e com os “jeitinhos” exigidos pela carroça tinha a questão da nudez. Ficar nu diante da plateia não é uma coisa fácil e simples. Aliás, passamos todo o período de ensaios usando roupas de trabalho e somente uma semana antes o Serginho disse que a gente tinha que começar a ensaiar pelado como seria na peça. Foi bastante difícil e hilário. Se ficar nus diante dos próprios colegas era duro imaginem diante do público. Na estreia este se tornou o menor dos problemas. Depois a gente foi se acostumando e tudo ficou muito mais fácil.  

 

Contrariando as expectativas a peça fez um sucesso enorme de público e de crítica. Quem assistiu com certeza ainda lembra de algumas cenas antológicas. E quem achava que com um cenário tão grande e gente não conseguiria sair de Porto Alegre, se enganou redondamente. O espetáculo fez mais de 300 apresentações e viajou por muitas cidades do Brasil, foi pra Argentina, pro Uruguai e para Portugal. Situações extraordinárias na vida de qualquer ator porto alegrense. Uma apresentação levava a outra. Um festival levava a outro. Um produtor nos viu no Uruguai e nos levou para Recife. Uma dramaturga nos viu em Canela e nos levou pra São Paulo.

 

Como sempre são muitas as histórias. Os punheteiros que frequentavam o Teatro Dulcina no Rio de Janeiro. A réplica da carroça que foi feita em Portugal. A forma como ensinamos a Liane a engolir fogo. A vez que a Adriane bateu com a cabeça numa viga de concreto do teatro. Quando o Palese cortou o pé num parafuso da carroça e fez a peça com a pé sangrando. Nossas temporadas no Uruguai com todos morando num apartamento. Nossa estadia na Casa Paschoal Carlos Magno. Nossas viagens na valorosa camionete preta. E outras tantas. Muita coisa pra lembrar.

 

Mas, o último parágrafo é pra falar do Mário. Que Mário? O Mário Cavalheiro que era o nosso cenotécnico e iluminador. Um dos melhores iluminadores do Brasil. Gente finíssima. Um daqueles caras que se fazem importantes por serem simples do jeito que são. Como o Decameron viajou muito é claro que passamos por muitos teatros diferentes que sempre exigiam adaptações tanto na peça quanto no cenário. O Palese às vezes perguntava pro Mário: “Como vai ser aqui?” Era a deixa do Mário. Invariavelmente ele olhava para o espaço com cara de entendido, olhava para as instalações de iluminação, ficava um tempo em silêncio e dava o seu veredito: “Não vai dar. Aqui não tem jeito”. Era sempre assim. Então, o Palese com sua calma habitual lhe dizia: “Pô, Mário, a gente não pode cancelar. Dá mais uma olhada e vê se dá um jeito”. O Mário sempre dava um jeito e na hora marcada a peça começava e a gente entrava em cena. Mas, a maior do Mário foi quando a gente estava escolhendo os sabores de pizza pra pedir e ele escolheu pizza de milho. Nunca mais ninguém quis dividir pizza com o Mário.

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