MEMÓRIA 07 – MEU INGRESSO NA CARREIRA TEATRAL
Já que
voltei tanto no tempo vou continuar no século passado. Em 1974 aconteceram duas
coisas importantes na minha vida: fui convocado pelo Exército Brasileiro para
servir no CPOR e passei no vestibular da UFRGS para cursar Direção Teatral.
Durante o dia eu brincava de soldadinho. De noite eu improvisava na aula da
Graça Nunes, fazia interpretação com a Irene Brietzke e sofria nas mãos da
Maria Helena Lopes na disciplina de Expressão Corporal. Passava o dia todo na
Cavalaria e saía direto para o DAD, muitas vezes ainda fardado. Era surreal.
Fiz
vestibular para Medicina e passei em Teatro. Pasmem, mas naquele ano, o
candidato podia colocar até oito opções para concorrer no vestibular. Minhas opções foram, nessa
ordem: Medicina da UFRGS, Medicina da Católica, Enfermagem, Biologia,
Psicologia, História, Educação Física e Teatro. Passei em Direção
Teatral. Me matriculei e comecei a cursar.
Foi naquele ano que começaram a falar da
destruição da camada de ozônio. Foi o ano que o Brasil foi eliminado da copa
pela Laranja Mecânica da Holanda. O Fittipaldi era campeão pela segunda vez. O
ditador da vez era o Geisel. A guerrilha urbana, bem como as priões arbitrárias
e a tortura estavam em seu apogeu. Geisel se “elegeu” em janeiro no mesmo mês
em que eu me apresentei no quartel pra servir na Cavalaria. Mesmo mês eu que
passei no vestibular. Milico e iniciante em teatro. Que insólita mistura.
Eram ambientes totalmente diversos. No quartel da Av. Correia Lima o clima era repressivo, cheio de normas e regras estúpidas. Eles se achavam os grandes líderes do país. Acreditavam fielmente em suas próprias baboseiras e queriam que a gente acreditasse também. Já no prédio da Av. Salgado Filho o ambiente era libertário, anti-repressivo, de enfrentamento artístico à ditadura. Duas vidas numa só. Uma que eu odiava cada minuto que eu passava lá dentro. E a outra. Aquela que eu começava a amar e me identificar.
A primeira peça inteira que eu participei foi Quando as Máquinas Param, de Plínio Marcos, em 1976. A direção era do Paulo Flôres, que viria ser o criador e líder do grupo Ói Nóis Aqui Traveis. A peça tem apenas dois personagens – Zé, um torcedor fervoroso do Corinthians que está desempregado, e Nina, sua esposa e companheira. O Zé foi meu primeiro grande personagem no teatro. A peça ficou muito boa e fez muito sucesso. Fez quatro apresentações no DAD e mais umas três ou quatro fora da escola, fato que era muito raro naquela época.
Atuar nessa peça marcou indelevelmente minha vida. Agora
eu sabia o que queria fazer.
Sempre quis e não sabia: teatro. Simples assim. Segui cursando o DAD até o
final de 1977. Em 78 tranquei minha matrícula. Não tive mais como conciliar a
faculdade com a necessidade urgente de trabalhar. Larguei a faculdade mas
continuei no Teatro.
Enquanto eu não conseguia um emprego fixo, comecei a arranjar trabalhos como operador de som ou de luz, bilheteiro e de produtor e vendedor de peças infantis. Vendi espetáculos para dois grandes produtores: Ronald Radde e Fernando Strelaw. Descobri que o caminho era fazer teatro infantil. Então, eu, o Camilo de Lélis e o Júlio Conte fundamos o Grupo Teatral Luz de Vela, que foi onde eu fiz minhas primeiras peças infantis, nas quais eu atuava, produzia, vendia nas escolas e, eventualmente, dirigia.
Em 1977 fiz minha primeira produção infantil: a peça “Palhaçadas” de João Siqueira, com direção do Júlio Conte, com Pedro Santos e Marco Antônio Sório no elenco. Estreamos no Teatro de Arena. Fizemos algumas apresentações e participamos da Campanha das Kombis, antigo projeto da Funarte para apoiar grupos teatrais. A Campanha acontecia em dezembro, mas o dinheiro só vinha no final de janeiro. Quando chegou eu estava completamente endividado. Peguei uma parte do cachê que era dos atores pra saldar compromissos pessoais. Quando o Pedro e o Marco vieram receber eu não tinha o dinheiro pra pagar. Ficaram putos com toda razão. Combinamos uma data, eu arranjei dinheiro e paguei aos dois o que eu devia. A vergonha foi tanta que aprendi a lição e nunca mais voltou a acontecer algo semelhante.
!977 foi ainda o ano de minha estreia como diretor com a peça “Alzira Power”, de Antônio Bivar. No elenco Júlio Conte e Rosa Maria Lima que era uma antiga atriz de Porto Alegre que andava meio afastada do palco. Foi quando aprendi que dirigir um espetáculo é uma coisa muito difícil. Pra finalizar a peça e me salvar da confusão que eu tinha me metido chamamos o Pernambuco companheiro da Rosa que era metido a entender de teatro e era o dono do bar onde a peça estreou que se chamava Gran Circus Panus et Certezas e ficava na Rua da República perto da sorveteria Jóia. A peça fez poucas apresentações e a crítica não foi nada boa. Tirei meu time de campo e só voltei a dirigir depois de alguns anos de experiência como ator com outros diretores.
No ano seguinte foi a minha estreía como ator no teatro infantil. A peça era “As Aventuras de um Diabo Malandro”, texto de Maria Helena Khüner, com direção de Camilo de Lélis. Eu era o Comandante. Braço armado do capitalista Capitolino representado pelo Roberto Adônis. A gente invadia o planeta Vênus pra explorar suas riquezas. Para nos impedir entravam em cena Maria Helena no papel de Venusiana e o Diabo Malandro interpretado pelo Júlio Conte. Impagável. Era um prazer muito grande contracenar com ele. Júlio era (ou é) um mestre da improvisação. Aprendi muito com ele. A peça tem a honra de ter sido o primeiro espetáculo infantil estreado no Teatro Renascença novinho em folha. Fizemos muitas apresentações em escolas.
Me lembro de uma ocasião em que a Maria Helena e o Betinho brigaram e se recusaram a fazer a peça. O Camilo fez o Capitolino e o Júlio, além do Diabo, improvisou a Venusiana com um cachorro de pelúcia amarrado numa cordinha. Era hilário. Tenho uma foto de uma apresentação na escolinha da mãe do rockeiro Mutuca. Me lembro de uma apresentação numa escola em que o Júlio formou um exército de diabos com metade das crianças e eu nomeei a outra metade como Comandantes. Os diabos venceram a batalha que se travou pelos corredores da escola.
Ainda em 78 atuei em “A Bicicleta do Condenado” de Fernando Arrabal, com direção de Paulo Flores. Foi a minha passagem pelo grupo Ói Nóis Aqui Travéis que, como eu, estava iniciando também. O protagonista da peça era o Celso Jardim e por intermédio dele fui trabalhar no espetáculo “Ciclo de Sangue” que era ambientado num bar no subsolo do Planetário. A direção era do Celso Veluza, que por sua vez já tinha me dirigido numa cena de “Terror e Miséria do III Reich” encenada no DAD. Nessa peça conheci uma grande atriz que se chamava Sílvia Veluza. Aliás, alguém sabe da Sílvia?
No DAD conheci a diretora Suzana Saldanha. Ou foi ela que me conheceu e me convidou para substituir um ator na sua peça infantil “A Comunidade do Arco-Íris”, do cultuado Caio Fernando Abreu. Eu entrei pra fazer um dos três macacos junto com Nelsinho Magalhães e Sérgio Lulkin. Na peça conheci o Elton Manganelli, futuro criador do Remendão. Conheci o Isaias Quadros (que virou professor), o Samuel Bets (que virou iluminador), a Tânia Wolf, que era a deusa desejada por todos e Simone Castiel por quem eu tinha uma paixão secreta.
Como das vezes anteriores eu teria noites inteiras pra falar mais sobre
cada um destes meus inícios. Minha experiência com a Suzana quando entrei para
um grupo importante. Minha experiência no Ói Nóis trabalhando de novo com o
Paulo Flores numa peça do Arrabal. É...
talvez eu tenha que voltar a este
assunto falando um pouco do teatro que se fazia quando o Ói Nóis foi fundado.
Mas por hoje é só.
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