MEMÓRIA 06 - O REINO DO SOL
Hoje vou voltar ao século passado, ao ano de 1978. Havia começado recentemente a fazer teatro, mas já tinha aprendido uma lição: a melhor porta de entrada para um iniciante era o teatro infantil. Esta modalidade garantia não apenas o ingresso na profissão, mas também a entrada de algum dinheiro com a bilheteria e as vendas para as escolas. Ponto importantíssimo já que havia nascido meu segundo filho.
Comecei a
fazer teatro na mesma época que dois amigos contemporâneos meus: Júlio Conte e
Camilo de Lélis. Juntos fizemos o espetáculo “Palhaçadas”, com texto de João
Siqueira e direção do Júlio no Teatro de Arena. E, depois, “As Aventuras de um
Diabo Malandro”, texto de Maria Helena Kühner, com direção do
Camilo, que foi a primeira peça infantil do recém inaugurado Teatro Renascença.
Sobre a primeira eu tenho uma história triste pra contar.
Sobre a segunda muitas histórias divertidas. Mas, hoje não quero falar delas.
Quero contar sobre a curta existência de “O Reino do Sol”, um dos primeiros
textos do Júlio Conte que escolhemos para encenar de olho na Mostra Gaúcha de
Teatro Infantil promovida pela Assembleia Legislativa e produzida pelos irmãos
Dilmar e Darcílio Messias.
Para participar da mostra (e de outros editais) foi exigido
pela poderosa Apetergs (Associação de Produtores de Teatro do Rio Grande do Sul
comandada por Ronald Radde, Ludoval Campos e Zé de Abreu, que dominavam a
produção infantil local), que a gente tivesse um CGC. Foi o que fizemos.
Enfrentamos a burocracia e fundamos o Grupo Luz de Vela. Como o endereço da
“empresa” era na casa do Júlio, acho que foi registrada no nome dele também,
Mas não lembro 100%.
Com o registro na mão tivemos nossa peça aprovada na Mostra.
Começamos com toda aquela energia de jovens iniciantes a nos reunir na casa do
Júlio e no Jardim Botânico para ensaiar. Fizemos laboratórios incríveis
baseados na intuição e naquilo que aprendíamos nos livros e nas aulas no DAD.
Na ficha técnica eu apareço como diretor, mas na prática era uma direção
coletiva já que tudo era discutido por todos.
No elenco um bando de jovens, as atrizes: Marta Biavaschi, Lara
Ribeiro e Paula Conte, que era engraçadíssima, falava com o sotaque italiano
aprendido na família Conte. Ela tinha um bordão no qual ela dizia: - “Xeca,
xeca! Xeca? Xeca, no! Enxuga!”. A plateia gargalhava com ela. Eu fazia o Rei
Cachorrão e meu orgulho era ser vaiado pelo público. Júlio Conte no papel do
personagem Herói, o protagonista da peça. Camilo de Lélis e Luiz Emílio Strassburger
completavam o elenco masculino.
Relendo programas antigos eu vi que assino a criação de
figurinos junto com a Anete Lubianca que também assina a cenografia. Olhando as
fotos percebo que os figurinos não eram nada bons. Mas o cenário era lindo. Nosso
Teatrinho Luz de Vela era o máximo. A reprodução de um pequeno teatro mambembe.
Olhem as fotos. Era ou não era uma maravilha? O texto também era muito bom.
Cheio de gags do autor e cacos que os atores botavam.
Pena que a peça teve uma vida curta. Fez somente seis
apresentações. Duas apresentações na 4ª Mostra de Teatro Infantil, às 10 e às
16 horas no sábado, 7 de outubro de 1978. Mais duas no Colégio Estadual Rio
Branco que fica na Protásio Alves, do lado do Israelita. E as últimas duas no Colégio Estadual Otávio
de Souza, localizado no bairro Jardim Botânico, onde eu morava na época. Aliás,
quando eu era criança estudei neste colégio.
Ainda vivíamos sob a ditadura militar que não acabava nunca e
que só foi acabar em 1985. Nos porões ainda se torturavam pessoas e vigorava a
censura prévia nos veículos de comunicação e nas artes. Para que pudessem ser
encenados, todos os textos tinham que passar pela censura. Podiam ser vetados
ou ser liberados com cortes.
Além disso, antes da peça estrear, existia o chamado ensaio pra censura, que era uma
apresentação do espetáculo especialmente realizada na presença de um, dois ou
até três censores dependendo do peça. Muitas peças foram proibidas e os
produtores tiveram que assumir prejuízos enormes. Com muita sorte (ou
babaquices em geral) sua peça era liberada sem cortes.
Pois “O Reino do Sol” foi a primeira peça infantil censurada.
E Júlio Conte foi o primeiro autor de uma peça infantil a ser proibido pela
censura por retratar para crianças a realidade que estávamos vivendo no país:
pessoas sendo exiladas, artistas sendo mandados pra fora do país, heróis da
resistência política sendo expatriados. Coloquei um antigo recorte de jornal
que conta a sinopse da peça. Era um retrato do Brasil.
Eram os primeiros acordes do Júlio na dramaturgia e já apontavam
para o grande autor teatral que Júlio Conte é hoje. Ele voltou a escrever para
teatro infantil em “Pedro e a Girafa”. É famoso como autor de “Bailei na
Curva”, mas é dele também “Zona Proibida”. E sua mais recente peça “Latidos” é
maravilhosamente bem escrita. Ainda bem que ele não foi calado pela censura.
Pra encerrar um acontecimento da peça que nunca mais esqueci.
A peça tinha muitas cenas. Se bem me lembro, mais de vinte cenas. Como a gente
não havia decorado a ordem das cenas, fizemos uma “cola” com a ordem e o número
da cena e colamos atrás da cortina do cenário. Desta maneira, quando a gente
saía de cena dava uma olhada na cena seguinte para saber as trocas de figurino
e/ou de personagem. Uma vez, não recordo mais em que apresentação foi, no final
de uma cena percebemos que estávamos todos atrás da cortina trocando de roupa.
Todos atrás. Isso quer dizer que por um breve momento a cena ficou vazia. Sem
vacilar nenhum segundo, o Júlio entrou em cena e fez um resumo de quatro ou
cinco cenas. Com o improviso dele a gente teve tempo de se reorganizar para
voltar a sequência do restante da peça.
Tenho gravado em mim, tanto o prazer de fazer a peça, quanto
a frustação de ver meu trabalho e meu sonho de estar em cena e ganhar algum
dinheiro por causa de uma decisão arbitrária da censura federal. Tudo isto que
escrevi é baseado na minha memória. Evitei perguntar para o Júlio e para o
Camilo porque, certamente, eles vão lembrar do que estou escrevendo, mas terão
outras lembranças para completar o mosaico que é recordar o passado. Todos e
todas que viveram a breve experiência d’O Reino do Sol terão seus recortes de
memórias para acrescentar aqui. Falo, especificamente, no Camilo e no Júlio
porque são nomes que voltarão a aparecer nestas minha memórias, já que estamos
teatralmente ligados pelo início de nossas trajetórias teatrais.
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