MEMÓRIA 05 - O PAGADOR DE PROMESSAS
Por falar em teatro-aventura já tinha outra me esperando ali adiante. Enquanto A Farsa do Panelada seguia apresentando-se por aí, começamos a ensaiar O Pagador de Promessas, texto de Dias Gomes que foi aprovado junto com O Auto da Compadecida num edital do Fumproarte para execução da terceira etapa do Projeto Teatro Brasileiro, que tinha como um de seus objetivos investigar o sincretismo religiosos brasileiro. Junto com Vereda da Salvação, as três peças faziam parte da Trilogia Religiosa. Vereda da Salvação havia sido encenada com recursos próprios, com elenco de alunos do curso de Formação de Atores e estreado em janeiro do ano 2000. O Pagador e o Auto receberam recursos financeiros públicos e foram encenadas logo em seguida. Vereda ficou de fora do porque com três peças o projeto ficaria muito caro e não seria aprovado pelo Fumproarte. (Na teoria o Fumproarte dizia que não havia limite máximo. O proponente podia livremente traçar sua planilha de custos. Mas, na prática o que se via é que cada produto artístico obedecia um teto para receber recursos. Uma peça de teatro tinha seu valor médio e não passava daquilo. A produção de um cd, de um livro ou de uma peça de teatro infantil, tudo, era limitado a uma média de investimento aplicado. Quem acreditasse na balela de que não havia limite máximo e projetava sua planilha acima da média ficava de fora. A velha política de atender o máximo de projetos possíveis.) Com o projeto aprovado imediatamente fui atrás das pessoas para fechar o elenco da peça, que era enorme, e dar início aos ensaios. integrantes do Depósito de Teatro que eram participações certas. A primeira era a Sandra Possani, minha amigona, parceira de trabalho e de vida. Fizemos juntos O Barão nas Árvores e Boca de Ouro. Sandra é daquelas atrizes especiais que faz diferença em qualquer elenco. O sonho de consumo de qualquer diretor. Emotiva, carismática, inteligente, capaz de se doar integralmente ao papel e ao teatro. Ela seria a Rosa, principal personagem feminina, esposa do Zé do Burro. Foi indicada ao prêmio Açorianos de Melhor Atriz pelo seu desempenho carregado de vida, paixão e originalidade. Não me lembro quem foi a atriz premiada daquele ano. Sei que não foi a Sandra. Isso demonstra a burrice a a desqualificação dos jurados daquele ano, os quais também não sei quem são. Para interpretar o papel da prostituta Marli outra integrante e fundadora do Depósito de Teatro: Maria Falkembach, minha companheira na época, atriz vigorosa dotada de enorme energia, com um entusiasmo ímpar e total disponibilidade para se entregar à cena. Para viver o Zé do Burro convidei o Nelson Diniz que, na minha concepção tinha o perfeito physique du role para o papel. Ator muito inteligente, maduro, com uma carga enorme de experiências no teatro e no cinema. Fazia muito tempo que eu tinha vontade de trabalhar com ele. O Nelson é criativo e original, colaborador valioso para o diretor e para os colegas. O entendimento entre ele e a Sandra foi total. Dava gosto de ver os dois atuando, contracenando. O Nelson ganhou o Açorianos de Melhor Ator daquele ano. Não tinha como ser diferente. Fui atrás do Marcelo Aquino, que na época estava trabalhando numa função burocrática no SESC, e chamei-o pra fazer o Bonitão, cafetão, mulherengo que ataca a Marli e tenta conduzi-la para o mal caminho. Na mini série, dirigida pela Tizuka Yamazaki, quem fazia o Bonitão era o Nelson Xavier, no cinema o papel foi interpretado por Geraldo Del Rey. O Marcelo era o próprio Bonitão. Como ator o Marcelo tem um corpo flexível, uma voz boa e marcante, imprime uma forte energia na interpretação e tem um olhar carismático que atrai o público. Se saiu muito bem. Cativava o público com seu charme, seu mau caratismo, sua canalhice masculina. Eu, a Maria, a Sandra, o Nelson e o Marcelo ensaiávamos todas as manhãs. E tinham duas ou três noites em que nos encontrávamos com o restante do elenco pra trabalhar todo mundo junto. De manhã a gente ensaiava todo o início da peça em que participam somente os quatro personagens. De noite a gente fazia uma preparação corporal, improvisações sobre outras cenas da peça e estudos de personagens. Quando completamos um mês dos ensaios matinais decidimos apresentar o resultado à noite para todo elenco ver. Preparamos alguma coisa de figurino. Fizemos uma pequena ambientação cênica. Os atores e atrizes aqueceram, se prepararam, se concentraram e apresentaram a sequência de cenas que havíamos trabalhado. A chegada de Zé do Burro e Rosa e o encontro deles com Bonitão e Marli. Pude ouvir um sonoro silêncio completo quando a apresentação acabou. Perguntei o que tinham achado e recebi como resposta algumas colocações vagas, alguns elogios meia boca. Perguntei, então: - Se vocês tivessem pagado 20 reais pelo ingresso e vissem aquele espetáculo teria gostado? Achariam bom? Se imaginassem que o restante da peça seguiria na mesma nota, na mesma linguagem não acham que a peça ficaria muito chata? Muito careta? Muito previsível? Todos concordaram. Chegamos a feliz conclusão de que havíamos descoberto o caminho que a gente não queria trilhar, o teatro realista barato que a gente não queria fazer. Com muito pesar e grande desapego jogamos fora um mês inteiro de trabalho e começamos a pesquisa de linguagem que acabou resultando no espetáculo. Uma linguagem que buscava a teatralidade que brota do ator, da atuação, e não do diretor. Uma linguagem sem golpes de teatro, e sim golpes de atuação. Busquei o apoio e a orientação da Profa. Maria Lúcia Raymundo, a renomada Lucinha, para trabalhar com os atores. Em três ou quatro noites de trabalho ela deu um sentido ao elenco. Dotou-os de um corpo teatral. Nos deu o caminho das pedras. O mapa da peça. A partir do trabalho com ela foi surgindo o nosso Pagador. A peça estreou na escadaria da Igreja Nossa Senhora das Dores no dia 4 de agosto de 2000. Fez mais de 100 apresentações e por isso mesmo vai ter mais uns três capítulos de memórias d’O Pagador. Eu vou contar como foi a negociação pra liberar o espetáculo na igreja. Vou contar sobre a batalha para conseguir energia elétrica. Sobre nosso ponto de concentração na CCMQ. Sobre os ensaios na escadaria em pleno inverno, sobre as viagens, sobre as apresentações em festivais. O restante do elenco também vai merecer um capítulo à parte. Era formado por Tiago Real, Mauro Soares, Áurea Baptista, Heinz Limaverde, Elison Couto, Humberto Pinheiro, Julinho Andrade, Maria de Jesus Corel, Aroldo Haro, André Larrêa, Maiquinho Cardoso, Uilian Candoca Ribeiro e Rochele Sá. Eu volto ao assunto para falar de cada um deles.
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